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quarta-feira, 20 de maio de 2009

REFLEXÕES SOBRE O BUDISMO ENGAJADO

Cuidando de Si, Cuidando do Mundo
Budismo Prático para a Transformação da Sociedade

Por Samuel Cavalcante

Para Onde Vamos?


1. As mudanças climáticas, e o conseqüente aumento dos desastres naturais, trouxeram ao nosso convívio familiar um assunto outrora restrito aos debates intelectuais. Se antes o debate era feito em termos de “socialismo ou barbárie”, o capitalismo agora se defronta à sua própria sobrevivência e busca encontrar uma saída para a sua civilização. A palavra “socialismo” se esvaziou do seu conteúdo original e, depois do fracasso das experiências européias e asiáticas, tornou-se mais a expressão de um sentimento difuso de alguns intelectuais e de setores mais pobres e marginalizados que um projeto civilizatório alternativo. Com esse alarme, as pessoas começam a perceber que o seu modo de vida tem um impacto no planeta em que vivem.

2. Acostumamo-nos a viver em função do aumento ilimitado de conforto e bens materiais. Para alcançar esse objetivo, os seres humanos ocuparam a Terra como uma máquina de guerra. Destruímos ecossistemas inteiros e ameaçamos destruir todos os outros. Extinguimos mais espécies vivas que todas as catástrofes naturais juntas. Acostumamo-nos a extrair os recursos da natureza como se eles fossem inexauríveis. Avançamos sobre as florestas transformando-as em pastagens e plantações de grãos como se isso fosse indiferente. Consumimos água como se ela fosse abundante, como se as fontes jamais secassem. Produzimos e consumimos plásticos e sintéticos sem nos darmos conta de que, em breve, não teremos lugar para jogar tanto lixo - sem percebermos que tanto a capacidade da sociedade como a da natureza em reciclar todo esse lixo é limitada.

3. Exploramos as energias do trabalho humano até o limite. Tentamos transformar cada minuto da vida em uma chance de aumentar a produtividade - estamos fazendo sempre, e cada vez mais, uma grande quantidade de coisas ao mesmo tempo. Estamos sempre tentando trocar o pneu com o carro andando, não queremos perder tempo. A tecnologia nos permite cumprir um sem número de tarefas e nos promete, com isso, mais tempo livre. Mas se pararmos para observar, essa mesma tecnologia não dissemina apenas mp3 e televisões por todo o canto. Ela sugere também a possibilidade levarmos mais trabalho para a cama, para o banheiro, para o restaurante, para a escola, para o carro, para as férias na praia.

4. O mp3 e a televisão são apenas acompanhamento para o trabalho extra com gosto de tempo livre. Na realidade o tempo livre é cada vez menor – menos tempo livre para ficarmos sozinhos, para usufruirmos a companhia de quem amamos, amigos e companheiros, para termos contato com a natureza, para usufruirmos de um pouco de paz e silêncio..

5. Estamos nos tornando incapazes de perceber diretamente as belezas da vida ao nosso redor, o verde, as árvores, os passarinhos, o olhar das pessoas, sejam elas crianças ou adultos. Esquecemo-nos de ver o céu azul e observar a curiosa forma das nuvens, esquecemo-nos de ver uma nuvem de chuva que se forma no horizonte e contemplar quando o tempo fica bonito pra chover e quando podemos até sentir o cheiro da chuva que vem de longe carregado pelo vento. Andamos apressados e ansiosos para perdermos caloria e não nos damos conta do vai-e-vem das ondas na praia ou os passarinhos nos fios dos postes ou até da beleza de detalhes arquitetônicos ou da vida comum dos bairros.

6. Estamos nos tornando incapazes de nos relacionar com o mundo sem mídia, sem meio, sem intermediações tecnológicas e, finalmente, tendo menos tempo livre para pararmos e nos darmos conta: para onde estamos indo?

7. A nossa sociedade é baseada na produção generalizada de mercadorias e na transformação generalizada dos elementos da realidade em mercadoria. Mas não é só isso. Tem mais um detalhe. Para que os criadores e vendedores de mercadorias tenham mais lucro é necessário que a forma por excelência do consumo seja individual. A produção não é para ser consumida coletivamente, é para servir aos desejos estimulados (e descontrolados) por bens e serviços de cada indivíduo. Como o objetivo é comprar prazer e satisfação, é necessário que o consumo se dê na esfera puramente privada, individual, solitária, pessoal. Não apenas a comida, móveis, bicicletas, bolsas, relógios, calças, cigarros são mercadorias. Qualquer coisa pode ser uma mercadoria e ser tratada como tal. As árvores, as flores, o ar puro, o amor, o sexo, o prazer, as notícias, as descobertas científicas, as filosofias, as armas, os governos, os partidos políticos, o corpo humano, os órgãos do corpo humano, tudo se transforma em mercadoria. Tem preço, custo, vida útil e sofre as oscilações do mercado, da inflação e da taxa de juros. E também, por que não, podem ser motivo de uso da violência para sua apropriação.

8. O "mercado", este fenômeno social que é quase uma pessoa, "descobriu" que a busca da felicidade pode ser facilmente substituída pela busca da satisfação dos desejos, especialmente a busca do prazer. Descobriu também que os desejos humanos são extremamente elásticos e, estes sim, muito provavelmente são inesgotáveis. Descobriu, por fim, que a busca do prazer é, por extensão, a busca por se cercar de coisas e que o prazer advindo dessas coisas é muito provisório e precário, ou seja, facilmente as novidades se tornam enfadonhas.

9. Essa é base sobre o qual construímos uma capacidade tecnológica enorme de criar mercadorias diferentes e transformar tudo o que nos cerca em novas mercadorias, as quais também envelhecem rapidamente e se transformam em um amontoado de mais do mesmo.

10. O tempo livre foi colonizado e com ele o reinado do mercado avança sobre a intimidade dos indivíduos e nas reentrâncias da vida privada e comunitária. A solidez e estabilidade da vida individual e comunitária são despedaçadas não em nome de uma percepção holística e sem ego do universo, mas como fruto da luta entre egos exacerbados pelo consumo e pela competição.

11. O fluxo da vida se torna um ciclo de trabalho, frustração, esperanças míopes, alegrias pontuais,economia de tempo e superestimulação dos sentidos. Não é à toa que vemos tocadores de mp3 e mp4 por todos os lados. A onipresença da música e da imagem serve justamente como pitada de tempero para disfarçar o prolongamento do tempo de trabalho, de produção e consumo de mercadorias, para as mais recônditas esferas da vida humana – as quais, até pouco tempo, tinham se mantido um pouco a um salvo da universalização do mercado e da circulação monetária. Tempo livre se tornou sinônimo de diversão e diversão, sinônimo de consumo - o corpo não pode parar, a mente não pode parar. Silêncio se tornou sinônimo de tédio, e paz, sinônimo de loucura.

12. Mas os alertas se multiplicam. Lentamente, estamos aprendendo que não pode mais ser assim. Tanto a idéia de que podemos produzir mercadorias ilimitadamente quanto a de que podemos consumir mercadorias ilimitadamente, são idéias extremamente perigosas - para nós e para nosso planeta. A satisfação é um estado volátil. Quando nos damos conta, não estamos mais satisfeitos. No budismo, costumamos chamar esse ciclo de satisfação e insatisfação no qual nos enredamos, de Samsara.

13. É necessário parar. Olhar em volta. Olhar para dentro. Para onde vamos?

Cinco Práticas Para Que o Futuro Seja Possível

14. “Para Que o Futuro Seja Possível” é uma maneira de traduzir o livro organizado pelo ven. Thich Nhat Hanh intitulado “For A Future To Be Possible”. Neste livro ele sugere aos indivíduos e grupos um conjunto de cinco práticas para, como o próprio título diz, garantir que o futuro seja possível.

15. Essas práticas são baseadas nos ensinamentos tradicionais do budismo, atualizados por ele e sua comunidade para dar conta das especificidades do mundo moderno.

16. Tradicionalmente, ao se tornar o budista o praticante toma para si o compromisso de praticar os chamados 5 preceitos (em sânscrito, Pancasila), que são: não tomar bebidas embriagantes, não matar, não roubar, proteger a energia sexual e praticar a fala correta. Thay observou que no Ocidente a palavra “preceito” é muito marcada pela tradição cristã dos mandamentos e pela noção de pecado. Refletindo em conjunto com a sua comunidade, ele então recuperou um outro sentido desses ensinamentos, também presente nos textos tradicionais: o de Shiksha, (treinamento em sânscrito). Chamou então a essas práticas de Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência.

17. Thây e sua comunidade observaram que o modo de exposição, próprio ao costume de transmissão oral, já não era mais adequado aos tempos modernos e precisava ser atualizado. Os ensinamentos budistas, para serem práticos e eficazes, ou seja, serem úteis no processo de libertação e de transformação do sofrimento, precisam se aproximar da linguagem e da vida das pessoas, senão correm o risco de se transformar em mero objeto de devoção.

18. Não são mandamentos. E nem têm como pano de fundo uma noção dualista de bem e mal e de pecado. São práticas que tem como base a possibilidade de cada um contribuir à sua maneira para a transformação de si mesmos e da sociedade. Os praticantes não são convidados a repetir idéias ou a ser parte de uma redes de transmissão de noções políticas abstratas. Nem tampouco se apartam da sociedade para se purificar e encontrar, cada um, seu próprio caminho individual de libertação e felicidade e nem constróem barreiras sectárias entre si e as demais pessoas.

19. A noção de treinamento (shiksha), por outro lado, reforça a perspectiva de superação do dualismo do mandamento. O mandamento, é para ser cumprido e estabelece o limite do bem e do pecado. O treinamento reconhece a precariedade da nossa situação existencial. Reconhece o fato de que não nascemos como uma tábula rasa, pronta a ser preenchida por uma educação que tenta inculcar conceitos e mudar nossas práticas através da linguagem.

20. Ao propôr a figura do treinamento, Thay e sua comunidade, baseando-se nos ensinamentos originais de Buda, observaram que o que somos é fruto de todas as nossas conexões pessoais e físicas constituída no passado, no presente e no futuro. Conexões com nossos antepassados de sangue, e os antepassados dos outros, as grandes figuras, os grandes líderes políticos e espirituais que ajudaram a construir a nossa identidade pessoal e a identidade da nossa sociedade, o nosso meio-ambiente, nossos amigos, família etc. “Não somos criações, somos manifestações”, diz Thây.

21. O treinamento é um elo necessário entre a finalidade do fim do sofrimento, da utopia, da liberdade, e o caminho que conduz a ela. A possibilidade da liberdade já está aqui, não está em outro lugar e nem está no futuro. A efetivação da liberdade é uma revolução existencial, que começa e se completa aqui e agora, não há outro momento onde isso possa ser feito, o passado já foi e o futuro não está tampouco disponível. Só temos o agora disponível para ser transformado e só mediante um mergulho no agora é podemos transformar o passado e o futuro.

22. Aquilo que chamamos de “eu” é algo muito problemático. Ao observarmos profundamente o nosso eu vemos que a cada vez que tentamos encontrar algo que seja a base de uma identidade intrínseca, nós o perdemos logo em seguida. Somos feitos de elementos que, separados, desfazem a ilusão da solidez desse “eu”. Somos, ao mesmo tempo, a água, os sais minerais, os elementos químicos do mundo orgânico e inorgânico, o sol e tudo o que sustenta nossa sobrevivência. Carregamos, além disso, as gerações passadas no nosso corpo e na nossa mente. Nossa existência não pode ser separada da existência do outro, do ambiente, do universo. No budismo chamamos a isso de ensinamento do “não-eu” e é um dos pilares da prática.

23. Thay também criou uma palavra nova para designar a existência nesses termos. Para além das especulações metafísicas acerca do Ser e do Não-Ser, Thay nos convida a pensar multidimensionalmente, envolvendo ao mesmo tempo processo e interdependência. Então ele chama isso de Interser. É um verbo também, não é apenas um substantivo. Ao existirmos, intersomos. Nós e o sol intersomos, você e eu intersomos. Nos e a sociedade intersomos. O sol e a lua intersão. As florestas e o nosso prato de comida intersão, assim como a sociedade e a natureza...E assim por diante. É uma maneira de adaptarmos a nossa linguagem aos ensinamentos, um modo de transformar uma noção de interdepedência, que poderia ser interpretada de maneira demasiado estática, em um verbo que transmite a mesma noção só que agora carregada de movimento, processo, possibilidade.

As cinco práticas, ou treinamentos da plena consciência são os seguintes:

Primeiro Treinamento

Consciente do sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar a solidariedade* e a aprender maneiras de proteger a vida das pessoas, animais , plantas e minerais. Estou determinado a não matar, a não deixar que outros matem e a não tolerar qualquer ato de matança no mundo, no meu pensamento e no meio modo de vida.


Segundo Treinamento

Consciente do sofrimento causado pela exploração, pela injustiça social, pelo roubo e pela opressão, eu me comprometo a cultivar a gentileza amorosa e a aprender maneiras de trabalhar pelo bem estar das pessoas, animais plantas e minerais. Praticarei a generosidade, compartilhando meu tempo, minha energia e meus recursos materiais com aqueles que realmente precisam. Estou determinado a não roubar e a não me apossar de nada que pertença, porventura, a outros. Respeitarei a propriedade alheia, mas impedirei que outros lucrem com o sofrimento humano ou com o sofrimento de outras espécies sobre a terra.


Terceiro Treinamento

Consciente do sofrimento causado pela má conduta sexual, eu me comprometo a cultivar a responsabilidade e a aprender maneiras de proteger a integridade dos indivíduos, dos casais, das famílias e da sociedade. Estou determinado a não me engajar em relações sexuais sem amor e sem compromisso duradouro. Para preservar a minha felicidade e a dos outros, estou determinado a respeitar os meus compromissos e os compromissos dos outros. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para proteger as crianças do abuso sexual e para impedir que casais e famílias sejam desfeitos pela má conduta sexual.


Quarto Treinamento

Consciente do sofrimento causado pelas palavras descuidadas e pela incapacidade de ouvir os outros, eu me comprometo a cultivar a fala amável e a escuta profunda para levar alegria e felicidade aos outros e aliviá-los em seu sofrimento. Estou determinado a falar a verdade, com palavras que inspirem autoconfiança, alegria e esperança. Não divulgarei notícias que não tenham fundamento seguro e nem criticarei ou condenarei aquilo de que não tenha certeza. Evitarei pronunciar palavras que possam causar divisão ou discórdia, que possam desagregar a família ou a comunidade. Estou determinado a fazer todos os esforços possíveis para reconciliar e resolver todos os conflitos, por menores que sejam.


Quinto Treinamento

Consciente do sofrimento causado pelo consumo irresponsável, eu me comprometo a cultivar a boa saúde, tanto física quanto mental, para mim, minha família e minha sociedade, praticando a alimentação, a ingestão de líquidos e o consumo com plena consciência. Somente ingerirei ítens que preservem a paz, o bem estar e a alegria no meu corppo, na minha consciência e no corpo coletivo e na consciência da minha família e da minha sociedade. Estou determinado a não usar álcool, ou qualquer tóxico ou consumir alimentos ou outros ítens que contenham toxinas, como certos programas de TV, revistas, livros, filmes e conversas. Estou consciente de que prejudicar o meu corpo ou minha consciência com esses venenos é trair meus ancestrais, meus pais, minha sociedade e as gerações futuras. Trabalharei para transformar a violência, o medo, a ira e a confusão que existem dentro de mim e na sociedade, mediante uma dieta para mim mesmo e para a sociedade. Entendo que uma dieta apropriada seja crucial para auto-transformação e para a transformação da sociedade.


Quem é Thich Nhat Hanh?

24. Thây, como é chamado pelos seus estudantes e seguidores, é um Mestre Zen nascido no Vietnã. No final dos anos 60, com a proibição de retornar ao seu país, Thay se estabeleceu no sudoeste da França, onde construiu uma comunidade de leigos e monásticos que é, hoje, internacionalmente conhecida como Plum Village. Tornou-se famoso por ter cunhado a expressão “budismo engajado” nas suas atividades sociais no Vietnã em meio às guerras de libertação nacional nos anos 60 – primeiro contra os franceses e, posteriormente, contra os norte-americanos. Nunca tomou partido nesse conflito, a não ser ficar ao lado dos camponeses pobres e ser contra a guerra, sendo por isso perseguido por ambas as partes em luta. Por causa desse engajamento, foi proibido primeiro pelo governo pró-americano e depois pelo governo comunista do Vietnã de retornar ao país. Somente em 2005 é que, depois de dez anos de negociações, ele pôde retornar e publicar livros, inclusive obtendo espaço para dar palestras para os altos escalões do partido.

25. Sua comunidade possui monastérios e centros leigos de práticas espalhados pelo mundo, especialmente Alemanha, Inglaterra, Holanda, Itália, França, Estados Unidos, Canadá, países escandinavos, Vietnã, Tailândia e Hong Kong. Nestes locais são organizados períodos de práticas coletivas de meditação, partilha de experiências, reconexão, exercícios físicos e artísticos, reflexão sobre o mundo moderno e encontros interreligiosos formais e informais. Os participante são convidados a refletir sobre si mesmos e sobre seus vínculos com os ancestrais, com a natureza como modo a transformar esta experiência em uma base concreta para um engajamento social sólido.

26. Diferentemente das escolas budistas tradicionais, mas sm excluí-las, os grupos de prática não se caracterizam pela ênfase na construção de templos e performance ritual. A base de sua rede de praticantes são pequenos grupos que se reúnem semanalmente para relembrar os treinamentos e descobrir os melhores meios de atingir a libertação do sofrimento, entendido em sua dimensão coletiva, social e ambiental.


*Proponho aqui a tradução de Karuna (que em inglês é traduzido comumente por compassion) por Solidariedade (ao invés de compaixão, como acontece tradicionalmente). Ver Nota de Tradução da minha autoria
.


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domingo, 9 de dezembro de 2007

TEXTOS E REFLEXÕES SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Para reaprender a lutar pela vida

Por Graciela Selaimen

Amália Souza trabalha com ONGs há mais de vinte anos. Atualmente, lida mais especificamente com organizações ambientalistas. Ela conhece bem os sentimentos que mobilizam quem se dedica a melhorar a qualidade de vida no planeta, pelos mais diversos meios e linhas de ação. E está disposta a ajudar a resgatar em todas as pessoas que trabalham para mudar o mundo para melhor (e também aquelas que têm o desejo de fazê-lo) o sentido da ecologia profunda – através da qual podemos lidar melhor com os sentimentos de frustração, raiva, medo e dor que a expoliação desmedida do planeta desperta em todos nós.

Para isso, Amália trouxe para o Brasil os “Exercícios da Re-Conexão” - práticas desenvolvidas pelas pesquisadoras Joanna Macy e Molly Young Brown, que estão descritas no livro Nossa vida como Gaia – práticas para reconectar nossas vidas e nosso mundo. Disseminadora do trabalho de Joanna e Molly no Brasil, Amália realiza palestras e workshops, além de ter trabalhado para a tradução do livro e sua publicação. Nesta entrevista, ela explica de que se trata o trabalho de reconexão e fala sobre a importância de resgatarmos a nós mesmos, numa transformação individual e coletiva em direção a uma “Sociedade de Sustentação da Vida”.

Em primeiro lugar, gostaria de saber como você está envolvida com a publicação do livro no Brasil e por que resolveu trazê-lo para o público brasileiro?

Conheci este livro há 4 anos, quando participei de um treinamento intensivo por dez dias com a autora, Joanna Macy, na Califórnia. Eu já conhecia algumas práticas que ela desenvolveu com outros parceiros e, quando vi, este livro tão completo, ficou óbvio para mim que este trabalho deveria estar disponível no Brasil o quanto antes. Então comecei a buscar parceiros para viabilizar sua tradução. A Editora Gaia aceitou o desafio, e aqui estamos!

Como eu não poderia fazer a tradução pessoalmente, e traduções de práticas são difíceis de fazer por quem não as vivenciou, assumi com Joanna o compromisso de revisar a tradução para assegurar que a essência das práticas fosse mantida.

Quanto à decisão pessoal de trazê-lo para o Brasil, foi devido à imensa riqueza de suas práticas e ao fato de ter vivenciado pessoalmente os efeitos que provocam em nossa capacidade de voltar a ver a vida como ela é. Participar de um desses workshops é como redescobrir o mundo, encontrar nosso espaço de atuação neste momento planetário em que tanta coisa está em jogo. Primeiro redescobrimos a beleza da vida no mais íntimo do nosso ser. Depois passamos por uma catarse que nos limpa dos nossos medos, raivas, tristezas e dúvidas pela situação do mundo em que vivemos. E então estamos preparados para receber um jato de energia renovadora, e encontrarmos entre nossos talentos o nosso próprio caminho para colaborar com a grande virada que transformará esta Sociedade do Crescimento Industrial na Sociedade da Sustentação da Vida. Essa vivência realmente nos faz acreditar que isto é possível, apesar de toda a evidência em contrário.

Há quanto tempo você estuda esses temas? E como Joanna vem desenvolvendo este trabalho no mundo?

Faz cerca de 18 anos que tenho notícias deste trabalho. Mas ele foi iniciado há mais de 25 anos. Nesta época, as pessoas começaram a entender a real ameaça da energia nuclear e do lixo atômico. À medida que Joanna foi inteirando-se dessas ameaças, começou a perceber seu efeito devastador na psiquê humana, principalmente nas pessoas vivendo próximas a usinas nucleares e seus depósitos. Iniciou, então, uma série de vivências chamadas de "Desespero e Empoderamento na Era Nuclear", que era uma tentativa de libertar o medo para poder agir contra essa gigantesca ameaça à vida.

Em 85, ela encontra John Seed, um psicólogo e ativista australiano líder mundial no movimento de proteção de florestas tropicais. Juntos percebem que podem expandir o trabalho do desespero pela destruição do mundo no reconhecimento de que esses sentimentos provêm de um profundo amor pela vida, que por sua vez deriva da nossa profunda relação de interdependência com o mundo natural. A partir de então, este trabalho espalhou-se por toda a Europa Ocidental e Oriental, EUA e Austrália. Só agora chega à América Latina.

Simultaneamente, eu, em 85, ganhava uma bolsa de estudos para fazer a faculdade na Califórnia em Desenvolvimento e Serviços Internacionais e Estudos Internacionais de Meio Ambiente, exatamente quando se iniciava um movimento global para salvar as florestas tropicais. Imediatamente me envolvi com este movimento através da Rainforest Action Network, onde iniciei um programa de solidariedade com a Aliança dos Povos da Floresta no Brasil. Um de seus líderes, e meu mentor, foi Ailton Krenak e seus parceiros, grandes lideranças indígenas do Brasil, na União das Nações Indígenas. Voltei ao Brasil para trabalhar com eles, momento em que aprendi de forma profunda o que significa a relação do povo indígena com a natureza. Lições inesquecíveis!

Daí fui trabalhar com comunicação eletrônica para a sociedade civil e fortalecimento institucional de ONGs. Presentemente, coordeno o programa brasileiro da Global Greengrants Fund, fundação americana que apóia ativismo ambiental no mundo todo. Com todo este trabalho com ONGs, pude observar suas grandes dificuldades e o enorme desgaste emocional que essas atividades acarretam nesses seres humanos. Foi por isso que, quando tive acesso à primeira vivência com cunho ambiental desenvolvida por Joanna e John, o Conselho de Todos os Seres, em 1990, comecei a estudá-la, assim como temas relacionados a Teoria de Gaia, Ecologia Profunda, Educação para a Terra, Teoria dos Sistemas Vivos etc. Com todas estas teorias, nada me tocava tanto como a tradução vivencial que Joanna fez de tudo isso, para ajudar-nos a entender essas teorias com todos os nossos sentidos. Quando tive, finalmente, a possibilidade de estudar diretamente com Joanna, em 2000, e conhecer a evolução daquele primeiro trabalho, tive certeza de que esta é realmente uma ferramenta indispensável para o nosso momento planetário, para reunirmos nossas energias e aumentar nossa eficácia nesse tremendo trabalho de consertar o mundo!

O livro é apresentado como um manual para a realização de um trabalho chamado de Exercício da Re-Conexão. De que se trata este trabalho?

Ele parte da premissa de que há informação mais do que suficiente nos mostrando o processo de destruição que ativamos no planeta. Mas saber disso com nossas mentes, apenas, não está provocando nosso engajamento para reverter este processo destrutivo. Este trabalho utiliza as mais modernas teorias da biologia, física, psicologia, mas transforma-as em exercícios práticos que envolvem todos os nossos sentidos nessa compreensão profunda da crise planetária, assim como amplia a nossa percepção do tempo universal e de nossos próprios atributos para colaborar na reconstrução da vida.

Esta é a beleza do trabalho de Joanna Macy: ela nos ajuda a interiorizar todas essas informações para que todo nosso corpo, mente e espírito participem nessa autotransformação que pode eficazmente operar nesse momento de crise planetária, enfatizando a necessidade do trabalho coletivo.

As autoras também se referem às práticas descritas no livro como um "trabalho de ecologia profunda". Como se pode definir este conceito - ecologia profunda?

O conceito de ecologia profunda foi definido pelo norueguês Arne Ness. Foi uma reação à visão antropocêntrica da nossa civilização, que define a humanidade como a "coroa da criação", tendo todo o planeta e outras espécies à nossa disposição para usar e abusar para o nosso próprio conforto. Hoje vemos que foi exatamente esta atitude que provocou o caos ambiental no qual vivemos atualmente, e a ecologia profunda oferece-nos ferramentas para refletir sobre esta atitude. Ela reativa nossa memória como seres planetários, dependentes da tênue teia da vida para sobrevivermos.

Os ambientalistas estão a par deste tipo de ecologia e têm abertura para aplicá-la nos seus projetos?

Este trabalho ainda não é conhecido no Brasil, e não é fácil falar dele. É um trabalho vivencial. Acredito que os ambientalistas estão precisando muito de um descanso, de um momento de reconexão, que é uma das principais razões que me motivaram a trazê-lo para cá.

É importante dizer que este trabalho não é só para ambientalistas. Ele serve para qualquer pessoa que percebe a crise atual e se sente impelida a agir, mas não sabe por onde começar. Ou mesmo para quem quer compreender melhor o que está acontecendo. É feito para seres humanos, em qualquer lugar, atividade ou condição. Todos precisamos nos reconectar com a vida, sem discriminação.

Para os ambientalistas, ele seria ainda mais apropriado, pois são pessoas que já compreendem a crise, mas não necessariamente sabem como percebê-la de forma mais holística, que inclui todo o seu ser, alinhado no cumprimento dessa missão.

Qualquer pessoa pode utilizar esses exercícios no contexto que achar apropriado. E há muita necessidade de aplicá-lo nos coletivos humanos, em momentos específicos dentro de encontros e reuniões. Pode ajudar muito nossa mente a voltar a focar na essência do que estamos tentando construir juntos, e não só nos problemas e nas diferenças.

As autoras criticam aquilo que chamam de "lógica da Sociedade de Crescimento Industrial", cuja economia depende do consumismo crescente e que obedece a um padrão nada sustentável, colocando sob ameaça a vida na Terra. Uma reação muito comum a essa ameaça é a apatia - que leva as pessoas a negarem uma dor coletiva, pela expoliação sem limites do planeta e os riscos que isso traz. Como se traduz esta apatia, e como lidar com a "dor pelo mundo"?

É muito difícil, no plano pessoal, lidar com a ameaça iminente de destruição do planeta. Todos nós sabemos que esta ameaça é real. Ainda assim, tentamos levar uma vida “normal”, trabalhando, estudando, cuidando da família. Nosso medo é tão grande que a maioria de nós só consegue operar no dia-a-dia bloqueando esta informação, empurrando-a para longe, como se não existisse. Isto gera uma aparente apatia, como se não nos importássemos. O que, em torno, provoca a irritação de pessoas que estão dedicando sua vida para melhorar o mundo, fazendo-as produzir ainda mais informação para assustar ainda mais as pessoas, esperando que o pânico vá motivá-las a agir.

O que Joanna e Molly apontam neste trabalho é que a alienação é uma ferramenta de autoproteção, não de falta de conhecimento sobre a presente crise. Como nossa cultura produziu um grande distanciamento entre nós e a natureza – nós e os sistemas que sustentam a vida na terra –, temos a falsa impressão de que satisfaremos nossas mais profundas necessidades indo às compras, consumindo mais, criando maior conforto físico em volta de nós e nossas famílias, nos hipnotizando com a indústria do entretenimento de massa – tudo para afastar de nós o que intimamente sabemos sobre a destruição que ocorre à nossa volta.

Como lidar com isso? Olhando de frente para isso. Lembrando que somos parte da vida na terra há 15 bilhões de anos, intimamente ligados a tudo o que vive, a todos os elementos. Como nos lembra o monge budista Thich Nhat Hanh, "precisamos ouvir dentro de nós os sons da terra chorando".

Precisamos lembrar que temos autoridade inata de proteger a sobrevivência de nossa e todas as espécies, pois precisamos de todas elas para produzir uma atmosfera que sustente a vida. O nosso antropocentrismo deve dar lugar ao biocentrismo. Uma canção do boi Garantido, de Parintins, no Amazonas, diz que "a vida depende da vida pra sobreviver". Lembrarmos como a vida funciona e qual é nossa parte nessa teia é a única forma de sobrevivermos nesta terra.

Fazer isso sozinho não é fácil. É por isso que precisamos uns dos outros. Esquecemos como viver verdadeiramente em coletividade. Nossa sociedade nos torna cada vez mais individualistas e isolados uns dos outros. Mas precisamos nos lembrar, precisamos reaprender, unir forças e talentos para lutar pela vida. É natural reagir pela sobrevivência quando ela está ameaçada. É instintivo, parte da vida.

Há um movimento crescente e já bem notável nesta direção. Já podemos reconhecê-lo. Joanna chama-o de A Grande Virada da Sociedade do Crescimento Industrial para a Sociedade da Sustentação da Vida. Os sinais da Grande Virada são claros, e muita gente já faz parte dela. Não estamos sozinhos. Precisamos nos encontrar e trabalhar juntos pela vida.

Por que a maioria das pessoas reprime esta dor?

A dor dói! É difícil encarar a dor de frente. Principalmente quando fomos condicionados a ignorá-la, ver sua manifestação como fraqueza, ou loucura. Na sociedade que criamos não há lugar para manifestar sentimentos de forma sadia. Ela nos mostra que devemos ser fortes, auto-suficientes, e não sensíveis ao que se passa à nossa volta.

Joanna e Molly falam no livro sobre as várias formas que usamos para reprimir nossos sentimentos. As fontes psicológicas da repressão que nos silencia diante da situação do planeta: o medo da dor, o medo do desespero, o medo de parecermos mórbidos, a falta de confiança em nossa inteligência, medo da culpa, medo de causarmos perturbação, medo de não sermos patrióticos, medo de parecermos fracos e emotivos, a crença em um Eu separado e o medo da falta de poder. Também apontam para as fontes socioeconômicas da repressão. Entre elas está a mídia popular, cuja mensagem constante é: consuma, obedeça, fique quieto, morra. Também sofremos as pressões de trabalho, a falta de tempo e a violência social.

Parece ser um esforço sobre-humano fazer alguma coisa dentro deste contexto. Mas o que este trabalho mostra é que não é assim. Uns dias com um grupo de pessoas trabalhando para este propósito específico têm efeitos que jamais conseguimos sozinhos.

O que é o "eu ecológico" e como este conceito se opõe ao antropocentrismo?

Muitas vezes, quando alguém nos pede para apontarmos para alguma coisa na natureza, sempre apontamos para uma planta, um animal, mas não para nós mesmos. Passamos a nos ver como separados da natureza. Como seus dominadores. Como se tudo na terra tivesse sido criado para servir a nossas necessidades. Podemos tirar, tirar e nunca devolver – o antropocentrismo. Não somos os donos! Nossos corpos são constituídos dos mesmos elementos que uma planta, uma rocha, o ar, a água, em proporções e combinações diferentes, e não há como dissociar nossas necessidades biológicas da existência dessa “matéria-prima” para manter nossos corpos vivos. Isso é fato! Destruir a disponibilidade desses elementos é o mesmo que cometer suicídio. E é isso que estamos fazendo!

Nossa habilidade de nos vermos novamente como parte da natureza, parte da vida, é o que pode devolver-nos a chance de sobrevivência neste planeta. Isso não pode ser visto como um sacrifício. Como lembra Arne Ness, "o cuidado necessário flui naturalmente quando o Eu se amplia e se aprofunda a ponto de sentir a proteção da natureza livre, concebida como a proteção de nós mesmos". Para isso precisamos de dedicação. Já não chega naturalmente. É tempo de unirmo-nos para nossa missão comum: reaprender a ser parte da natureza para recuperar um ambiente favorável à vida!

Que correlações este movimento de ecologia profunda tem com outros, como o ecofeminismo, ecojustiça e ecopsicologia? Você pode falar um pouco sobre estes movimentos?

John Seed diz muito bem que "o antropocentrismo significa chauvinismo humano. Semelhante ao sexismo, mas substituindo 'raça humana' por homem e todas as outras espécies por mulher". O mesmo pode ser dito em relação à disparidade econômica que existe no planeta, onde poucos consomem quase todo o planeta enquanto a grande maioria padece na miséria. No ecofeminismo, questionou-se que as forças que destroem o planeta provêm realmente do "androcentrismo" (patriarcado) e que as características femininas são curadoras, as que cuidam, protegem e dão a vida. A ecojustiça, por sua vez, traça paralelos entre a crise ambiental e as questões de raça, classe social e pobreza. Fica claro que justiça social inclui acesso a um ambiente saudável. Então o que dividia os ativistas entre movimento social e movimento ambiental dialoga agora dentro do socioambientalismo.

Já a ecopsicologia é uma das linhas mestras no Exercício da Re-Conexão. Esta linha da psicologia, principalmente, conclui que nossa saúde mental e psíquica não depende somente de nossas relações com os outros seres humanos, mas com o sistema de vida terreno que nos mantém vivos. É preciso expandir nossa percepção para englobar a saúde do planeta. Não podemos ter sanidade sem curarmos nossa relação de falsa separação do mundo natural, o que eventualmente nos leva a concluir que não somos senhores absolutos da vida na terra.

Como você vê a importância de que as dinâmicas apresentadas por Joanna Macy e Molly Brown sejam postas em prática por ativistas de ONGs e movimento social? Em que medida os ativistas da área ambiental (por exemplo) lidam com a dor, a raiva e o medo por conta do que está sendo feito com o planeta?

Acredito que é fundamental para os ativistas encontrarem o equilíbrio entre sua tremenda dedicação pela transformação do mundo e sua dedicação por modelar esta transformação no nível pessoal. Não é possível ser eficiente quando não se dorme bem, não se come bem, não se cultiva e atende às amizades ou não se descasa a mente dos prazeres que a vida nos proporciona. Mas em geral não fazemos isso. Temos um mundo a salvar e não temos tempo para descansar!

Convivo com ativistas do Brasil e do mundo há quase 20 anos e me considero uma deles. Mas na luta para melhorar o mundo vejo que a grande maioria trabalha motivado pela urgência da situação, o que demanda um grande estresse mental e muita ação combativa. Por um lado, extravasam a dor e angústia dessa forma. Mas isso acaba afetando suas relações uns com os outros. Sem momentos de reflexão, de "respiro", tudo à sua volta se torna urgente e não há tempo, muitas vezes, para buscar o consenso entre os colegas. Muitas organizações não sobrevivem, outras disputam recursos limitados em detrimento da eficiência dos resultados. Perde-se, assim, uma tremenda energia que poderia estar sendo focada na resolução dos problemas comuns. Não estou dizendo que não há eficiência no seu trabalho, muito pelo contrário. As conquistas são enormes nas últimas décadas. Somente que o custo pessoal desse sucesso é muito alto, e pode ser amenizado.

Acredito que é tempo de os ativistas reverem sua forma de trabalho e darem-se chance para refletir, reconstruir parcerias e renovar energias, pois o trabalho é grande e árduo.

Estou certa de que todos, ou a maior parte desses ativistas, iniciaram seu trabalho ambiental e social devido a uma profunda indignação sobre o estado atual das coisas, proveniente de um profundo amor pela vida e pelos seres vivos. É preciso que se lembrem disso. Tenho certeza de que o Exercício da Re-Conexão é um ótimo antídoto para o desgaste energético que sofrem diariamente. Sem dúvida, devemos trabalhar pela vida e ser eficientes, mas não em detrimento de nossa saúde e nossas relações pessoais. Assim só fazemos entrar na doença coletiva! É tempo de cuidarmos de nós para sermos mais eficazes nos nossos projetos – sermos a mudança que queremos ver no mundo, como diz sabiamente nosso mestre Gandhi.

Isso implica um grande novo esforço coletivo. Como nossos egos nos atrapalham muito nesse sentido, temos que reaprender como fazer isso. Reaprender, por exemplo, com os gansos! Gosto muito de lembrar como se organiza um bando de gansos em vôo migratório. Voam em formação de V, com o líder na ponta. O bater das asas dos da frente alivia o esforço dos de trás. Quando o líder se cansa, passa para trás e outro assume a liderança. Precisamos aprender a descansar, a pedir ajuda e a aceitá-la. E principalmente a manter a conexão com a vida, nosso melhor alimento para atingir o sucesso.

Como é possível multiplicar este trabalho de reconexão?

O livro “Nossa Vida Como Gaia” demonstra a natureza extremamente generosa da autora. Qualquer um que obtém o livro e se identifica com o trabalho pode aplicá-lo em seus grupos. E como ela mesma diz: quanto mais gente estiver aproveitando-o, melhor. Há muito o que fazer para determo-nos em individualismos.

Isso dito já esclarece o meu papel neste processo. Como acredito imensamente nos efeitos positivos deste trabalho, me proponho a disseminá-lo no nosso país oferecendo os workshops a quem se interessar, para que ele possa tornar-se conhecido. Tenho colaboradores no momento que estão organizando o primeiro material de disseminação, uma agenda de workshops para esse final de ano e 2005, para mobilização da mídia etc. Estaremos abertos a qualquer pessoa que quiser levar este trabalho a sua região e nos ajude a organizar um workshop local.

É importante mencionar que nem eu nem qualquer organização atualmente envolvida nesse trabalho no Brasil pretendemos deter nenhum direito sobre ele। Qualquer pessoa que queira pode usá-lo da forma como achar conveniente. É um presente de Joanna Macy para o mundo. E é um presente lindo! Convido todos a se permitirem esta magnífica experiência de reconexão com a vida! Espero vocês!

Fonte: Rets - Revista do Terceiro Setor


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