Blog complementar de conteúdos que alimentam a página principal da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

Mostrando postagens com marcador paz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador paz. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de março de 2008

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Terceira Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante

Para ler a primeira parte deste texto, clique aqui.

Para ler a segunda parte deste texto, clique aqui.

Os Cinco Reinos da Paz

Nós temos nosso próprio território de paz dentro de nós, que é composto de cinco reinos - nosso corpo, nossos sentimentos, nossas percepções, formações mentais e consciência. Temos que trazer paz ao nosso corpo e remover seus conflitos, tensão e dor. Existem também muitas tempestades, aflições e dor no reino de nossas emoções. Temos que aprender a trazer a paz para esse território de sentimentos e emoções.

Quando eu olho para a minha caneta, eu tenho uma percepção dela. Se minha percepção corresponde fa realidade da caneta ou não é uma questão real - por que vivemos com muitas percepções errôneas. Acreditamos que somos os únicos a sofrer, que os outros estão nos fazendo sofrer e que eles não sofrem de jeito nenhum. Este é um tipo de percepção errônea. Se acharmos tempo para inspirar e expirar e encontrar a paz em nós mesmos, poderemos ver que as outras pessoas também sofrem enormemente, assim como nós, e precisam ser ajudadas, não punidas. Por isso a paz não poderá ser possível sem a remoção dos elementos de percepção. Quando nossas percepções nascem da raiva e do medo, elas não podem ser chamadas de percepções corretas. Por sua vez, nossas percepções erradas dão origem ao medo, à raiva e ao desespero, que podem nos levar a cometer atos de violência, punição e morte. Por causa disso, é muito importante praticar a meditação sentada e andando, para podermos trazer paz aao reino das nossas percepções e remover os elementos errôneos.

O quarto reino é aquele das formações mentais, cittasamskara. Uma formação (samskara) é algo que se manifesta quando muitas condições são reunidas. Uma flor é uma formação física - chuva, o sol, a terra, o tempo, o espaço se reuniram para que a flor se manifestasse. Nosso corpo é uma formação fisiológica. Todas as formações são impermanentes e estão em constante mudança. Nosso medo, nossa raiva, nossa discriminação, esperança, alegria e nossa plena consciência são formações mentais. Na tradição budista, identificamos cinquenta e uma formações mentais. Quando contemplamos nossa mente, não estamos olhando para um espaço claro e vazio, olhamos para as nossas formações mentais.

Por fim temos o reino da consciência. Temos que voltar para o lar da nossa consciência, poor que nossa consciência é o chão de todas as coisas. Nosso corpo, nossos sentimentos, percepções e formações mentais nascem do chão da consciência. Não somente o nosso corpo contém nossa consciência, nossa consciência também contém o nosso corpo.

Eu Sou Sólido, Eu Sou Livre

O que significa ser sólido? Significa estar no momento presente. Nós temos uma tendência a sermos jogados em direção ao passado. Sentimos remorso por alguma coisa ou nos sentimos culpados e nos perdemos em meio a tudo isso. Não somos sólidos por que somos vítimas do passado. Não somo capazes de viver no momento presente por que o passado se tornou como um fantasma, sempre nos puxando de volta. Existem pessoas que somente pensam no passado, que não são capazes de viver no presente, que não são livres e nem sólidas.


Muitos de nós estamos amarrados por nossas preocupações, medo e incerteza em relação ao futuro. Essas preocupações não permitem estar presentes e tocar a vida. Quando dizemos "Cheguei, estou em casa", "você não pode me pegar, estou no aqui e no agora" ou "eu sou mestre de mim mesmo", então nos tornamos sólidos. "Eu sou sólido" não é conversa fiada. Se você for capaz de chegar e se sentir em casa, então se tornará sólido naturalmente. Isto é um sinal de que você está aqui e agora, em casa. Nâo é mais uma esperança, é realidade, você se torna consciente de que está mais sólido. Se você gastar três minutos caminhando, chegando e se sentindo em casa em cada momento, a solidez se tornou uma realidade, um fato. Você saberá quando estiver sólido ou não. Você será sólido quado estiver completamente estabelecido no aqui e no agora. O passado não pode te pegar e nem o futuro; você é livre. Por isso dizemos "Eu sou sólido, eu sou livre".

Livre de que? Livre do passado, das minhas preocupações, do meu medo. É por isso que solidez e liberdade não são duas coisas. Quando somos sólidos, somos livres; quando somos livres, somos sólidos. É como o aqui e agora. Solidez e liberdade são o fundamento da paz e da liberdade. Cada passo consciente que damos nos ajuda a cultivar mais solidez e mais liberdade. Seja você mesmo, seja livre, estabeleça-se no aqui e no agora. Toque a vida profundamente e receba o alimento e a paz que você tanto necessita.


A onda está agora repousando na água. Você está repousando no absoluto, em Allah, em Deus, em sua natureza de Buda. Não é um questão de tempo. O absoluto está disponível aqui e agora; a água está disponível para a onda aqui mesmo, nete exato momento. O absoluto é o nosso fundamento. Caminhando e respirando dessa maneira, você estará sempre em contato com Deus, não como uma noção, uma idéia, mas enquanto uma realidade. Você pode tocar em Deus, tocando em uma flor, tocando o ar, tocando outra pessoa. Fora dessas coisas não há Deus. Se você remover todas as ondas, não haverá mais água. Tocar as maravilhas da vida em você e à sua volta significa tocar o absoluto.

A Paz Está Em Cada Momento

A Sala de Meditação é maior que a sala que você usa para se sentar. Ela inclui o ar e a terra em volta e até mesmo o banheiro que você usa. Você pode achar que o banheiro não é tão sagrado quanto a sala de meditação, mas isso não é verdade. No espírito do Zen, o banheiro é tão sagrado quanto a sala de meditação ou o salão do Buda. É por isso que pomos um vaso de flores no banheiro, para mostrar que ali também é um lugar para praticar. Quando você lavar suas mãos no banheiro aprecie a água escorrendo pelos seus dedos – isso é Deus, isso é felicidade. Você é capaz de apreciar a água, essa maravilha da vida,escorrendo pelos seus dedos? Se você estiver aqui, agora – plenamente consciente e concentrado – sentir a água escorrendo nos seus dedos será maravilhoso, e isso lhe servirá de alimento e cura. Aproveite cada segundo e sorria para si mesmo. A paz está aqui e agora, disponível. Escove seus dentes de tal modo que a paz e a alegria sejam possíveis. Desafie a si mesmo: quando estiver escovando os dentes, pergunte a si mesmo se você é feliz ou não. Dê a si mesmo tempo suficiente para apreciar. E também ao urinar, desfrute esse momento. Por que ter pressa? Desfrute do seu tempo no banheiro.

A paz e a alegria deveriam ser possíveis em cada momento. Por favor, tente. Quando caminhamos juntos, como um grupo, desfrutamos da energia coletiva da plena consciência e da concentração. Se nos perdermos em pensamentos, se formos carregados pelos nossos projetos, pelo passado ou pelo futuro, então o caminhar sólido de um irmão à nossa direita ou de uma irmã à nossa esquerda nos trará de volta ao lar do nosso aqui e agora e, assim, poderemos retomar nossa caminhada plenamente consciente. Cada passo dado assim nos serve como cura e alimento. Não pense nisso como uma prática difícil. A prática deve ser alegre e prazeirosa. Se você sofrer durante o caminhar, o sentar ou o comer, então você não estará praticando corretamente. É um pic-nic – você deveria ser capaz de apreciar cada momento.

De tempos em tempos convidamos o sino a soar. O sino é a voz de Deus, do Buda, de Allah em nós, chamando-nos para o nosso verdadeiro lar, para o aqui e o agora. Sempre que o telefone tocar, é também a voz de Deus nos chamando de volta ao momento presente. Se você estiver ajudando na cozinha ou trabalhando no jardim, desfrute cada minuto do ato de cozinhar ou de cuidar do jardim. Você está sempre no Reino de Deus – não o deixe. O passaporte para entrar no Reino de Deus é a plena consciência e a concentração. Mantenha esse passaporte com você e você estará apto a permanecer no Reino de Deus e não terá que deixá-lo.

Aproveite o seu pic-nic.

Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other publicado pela Parallax Press.

** Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora no Village des Pruniers (Plum Village), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


Poste um comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Clique aqui e volte à página Reflexões sobre o Budismo Engajado

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Entrevista à Monja Coen: “A vida em harmonia com a própria vida”


Por Paulo Stekel

Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo, com sede no Japão, e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001. Foi ordenada monja em 1983, quando foi para o Japão, lá permanecendo por 12 anos, sendo 8 dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo.

Retornou ao Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji (São Paulo), sede da tradição Soto Shu para a América do Sul, durante seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano.

Participa de encontros educacionais, interreligiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não-violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos.

O que é ser "Zen"? Depende de uma prática budista ou é mais uma atitude de vida?

Zen Budismo é uma das tradições religiosas budistas. É a prática da vida em harmonia com a própria vida.

É apenas impressão ou muitos praticantes budistas brasileiros - independente da escola - encaram a prática muitas vezes como um "modismo", uma simples "reunião social" ou algo para motivo de status? Ocorre o mesmo no Oriente? Isso contribui de alguma forma para a divulgação do Budismo?

Há muitas pessoas à procura de alguma coisa que não sabem exatamente o que é. Quem se aproxima é porque tem algum relacionamento. O Zen Budismo, o Budismo em geral, é muito pequeno no Brasil. Já no Oriente é a religião tradicional. O que convida brasileiros a se interessarem? A procura de si mesmos, a procura de um significado para vida-morte, a procura da verdade e do caminho. Nem sempre as pessoas têm clareza sobre isso.

Atualmente o Budismo tem se aproxi-mado do Cristianismo através do diálogo interreligioso. Que ações a comunidade budista brasileira tem realizado socialmente em prol dos menos afortunados? Perguntamos isso porque muitas pessoas nos relatam a impressão de que, pelo menos no Brasil, o Budismo tem sido uma "prática de elite". Isso reflete a realidade ou é uma falsa impressão?

O Budismo é muito pequenino no Brasil. As tradições japonesas aqui no Brasil mantêm creches, escolas, centros assistenciais, hospitais, asilos para idosos - alguns em parceria com grupos cristãos, outros independentes. Nossa comunidade faz trabalho voluntário no Hospital Emílio Ribas, atendendo pacientes e cuidadores e também na Casa de Acolhida de Pinheiros, com crianças e adolescentes de rua. Definitivamente muito pouco, mas é o que podemos fazer agora. Há muitas formas de trabalho social e uma delas é a de transformar as mentes discriminadoras e preconceituosas de elites que mantêm as diferenças sociais. Mais do que assistencialismo temos de transformar culturas e sociedades. Se prestar atenção, note que o Cristianismo chegou ao Brasil através dos imigrantes portugueses - uma elite na época.

A sra. já foi casada no Japão. Como foi isso? Por que algumas escolas budistas japonesas permitem o casamento a monges? Isso foi produto do reconhecimento de uma questão natural, como afirmam os monges da Terra Pura, já que, no passado, a maioria dos monges tinham relacionamentos às escondidas?

A grande maioria dos monges são casados no Japão. Desde cerca de uns duzentos anos, quando em comum acordo com as lideranças políticas, as lideranças religiosas optaram por permitir o casamento dos monásticos. Foram várias as causas, uma delas a que você mencionou. Mas não foi a única.

Mesmo no Budismo há preconceito contra a mulher, especialmente quanto a esta ocupar os postos mais elevados na hierarquia? Essa postura não contradiz os ensinamentos do Buda?

Sim. Qualquer discriminação ou preconceito é contrária aos ensinamentos de Buda. Entretanto, o próprio Senhor Buda discriminou contra as mulheres e fez oito regras especiais para que se tornassem monjas. Hoje, quando estudamos em profundidade o assunto, temos de verificar como era a sociedade local na época e percebemos o avanço de Xaquiamuni Buda ao permitir, mesmo que com regras especiais, que as mulheres se tornassem monásticas. Assim, podemos perceber que mesmo os seres mais elevados estão sujeitos à Lei da Causalidade e envolvidos pelos valores locais, regionais e culturais. A sabedoria con-siste em percebê-los e transformá-los. Para isso vivemos.

Seu trabalho atualmente é praticamente independente, correto? O lado bom disso não seria incentivar trabalhos mais independentes, uma forma de adaptação ao conflito e de assegurar que os ensinamentos sejam transmitidos sem prejuízo?

Sem dúvida aprendemos com as várias experiências da vida. Devo admitir que tem sido muito estimulante trabalhar de maneira mais livre e independente.

O Budismo no Ocidente tem cerca de um século. Algumas adaptações já são sentidas e se fala num "budismo ocidental". Isso ocorreu no Tibete, que se adaptou à forma indiana de prática e a mesclou com sua religião xamânica original (o Bön). O "Budismo Ocidental" será uma mescla com o Cristianismo?

Não sei. Espero que não. Espero que possamos manter as tradições separadas e nos respeitar mutuamente. O Budismo Brasileiro será mais arroz com feijão do que sopa de misô. Mas ainda faltam muitos e muitos anos para falarmos em Budismo brasileiro. Nos Estados Unidos já se fala em Budismo Americano, com características definitivamente diferentes das orientais. Mas aqui no Brasil ainda engatinhamos. O que acontecerá?

A senhora vê a Internet como um dos meios adequados para divulgação do Budismo neste mundo globalizado? Isso pode contribuir para uma união maior entre as diversas escolas budistas?

Sim.

A senhora pertence a alguns movimentos que buscam a união entre as religiões. Claro que uma "união doutrinária" é difícil, já que cada uma tem uma estrutura própria. Mas a união de propósitos - o bem-estar da humanidade e do planeta como um todo - parece viável. Como vê essa tendência?

A Iniciativa das Religiões Unidas tem o propósito de criar culturas de paz, justiça e cura da Terra. Não é uma proposta fácil de se realizar. Mas acredito que a transformação de uma sociedade violenta e corrupta em uma sociedade mais justa e não violenta depende também do respeito e compreensão entre as religiões do mundo.

Agradecemos muito sua gentileza em conceder esta entrevista. Gostaríamos que deixasse uma mensagem para nossos leitores, se possível sobre o que cada um, independente da prática religiosa, pode fazer para melhorar o planeta, as condições ambientais, e diminuir a violência, o materialismo e o sofrimento geral.

Perceber que somos a vida da Terra. Não viemos nem iremos a nenhum outro lugar. Deixamos marcas com nossa existência. Visíveis e invisíveis. Que possamos deixar marcas de amor e ternura, compaixão e sabedoria para que todos os seres se beneficiem e todos possam viver em harmonia e fartura. É cuidando que somos cuidadas. É servindo que somos servidas. É fazendo o bem que nos beneficiamos. Interligados, interconectados com toda a vida do universo. Tudo sempre retorna a nós mesmos. Somos a vida. Mãos em prece.

Fonte: Revista Horizonte – Leitura Holística, n. 12, outubro de 2007


Para mais informações sobre Monja Coen Sensei, clique aqui.

Para mais informações sobre a Comunidade Zen do Brasil, clique aqui.


Poste um comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Clique aqui e volte à página Reflexões sobre o Budismo Engajado

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Segunda Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante

Para ler a primeira parte deste texto, clique aqui.

Para ler a terceira parte deste texto, clique aqui.

Caminhando Conscientemente

Em Plum Village, quando caminhamos, tomamos refúgio em cada passo e entramos em contato com o absoluto em nossos passos. Damos um passo e tomamos refúgio inteiramente nele. O absoluto se torna disponível para nós naquele momento. Você tem que trazer cem por cento do seu corpo e do seu espírito ao tomar refúgio nos seus passos.

Na nossa vida diária, temos o o hábito de correr. Buscamos paz, sucesso, amor, Deus - estamos sempre correndo - e nossos passos são o meio para fugirmos do momento presente. Deus está disponível somente no momento presente. Dar um passo e tomar refúgio nele significa parar de correr. Para aqueles que estão acostumados a estar sempre correndo é uma revolução dar um passo e parar de correr. Damos um passo e, se soubermos como dar este passo, a paz e Deus estarão disponíveis no momento em que tocarmos a terra com nossos pés.

Enquanto caminho devagar, quando inspiro, dou um passo e quando expiro, dou outro passo. eu me entrego inteiramente ao dar o passo enquanto inspiro. Tomo refúgio inteiramente no passo, encontro o absoluto, Deus e a vida, por que a vida é disponível apenas no momento presente. Estas são coisas bastante simples, mas nunca encontramos tempo para percebê-las. O passado já se foi, o futuro não está aqui ainda,somente o momento no qual podemos estar realmente vivos: o momento presente. É por isso que é tão importante tomar refúgio na nossa inspiração e no nosso passo, por que eles são os únicos meios para nos levar ao nosso lar no momento presente, onde podemos tocar a vida e encontrá-la profundamente.

Eu Cheguei

Imagine que você está em um avião, voando para Nova Iorque. Uma vez sentado lá dentro, você pensa "Tenho que me sentar quieto durante seis horas até chegar lá". Sentado no avião, você pensa somente em Nova Iorque, não é capaz de viver os momentos que lhe são oferecidos agora. Mas é possível, para você, caminhar no avião de tal modo que você desfrute de cada momento de paz. Você não precisa chegar em Nova Iorque para estar em paz e feliz. Ao longo de sua caminhada, cada passo traz a você felicidade e você chega em cada momento. Chegar significa chegar em algum lugar. Quando você pratica a meditação andando você chega em cada momento - você chega ao destino da vida. O momento presente é um destino. Inspirando, dou um passo, outro passo e digo a mim mesmo "eu cheguei, eu cheguei".

"Eu cheguei" é a nossa prática em Plum Village. Quando você inspira, toma refúgio em sua inspiração, e diz "Eu cheguei". Quando você dá um passo, você toma refúgio no seu passo e diz "Eu cheguei". Isto não é uma declaração para si mesmo ou pra outra pessoa. "Eu cheguei" significa eu parei de correr. Eu cheguei no momento presente, por que somente o momento presente é vida. Quando eu inspiro e tomo refugio em minha inspiração, toco a vida profundamente. Quando dou um passo e tomo refúgio inteiramente no meu passo, também toco a vida profundamente e, desse modo, paro de correr. Parar de correr é uma prática muito importante. Corremos durante toda a nossa vida. Acreditamos que a paz, a felicidade e o sucesso estão presentes em algum lugar e em algum tempo. Não sabemos que tudo - paz, felicidade e estabilidade - deveriam ser procurados no aqui e agora. Este é o endereço da vida - a interseção do aqui e do agora.

Isto parece ser fácil, e todos podem fazê-lo, mas precisa de algum treinamento. A prática de parar é crucial. Como eu paro? Paramos através de nossa inspiração, de nossa expiração e de nossos passos. É por isso que a nossa prática básica consiste em respirar conscientemente, andar com plena consciência. Se você dominar estas práticas, então você poderá praticar o comer consciente, o beber consciente, o cozinhar consciente e o dirigir carros consciente - e você sempre estará em paz. Não devemos ser como o professor e seus alunos que estavam sempre correndo até virem um funeral e perceberem que este era o pic-nic final. Temos que desfrutar o nosso pic-nic aqui mesmo, neste exato momento. E temos os meios de fazê-lo. Se você acha muito difícil inspirar ou dar um passo com plena consciência, você está errado. São coisas bastante agradáveis. Você pode tocar a paz apenas pela inspiração ou com um passo. Você pode tocar a semente de paz que existe dentro de você e remover a tensão e o conflito em seu corpo, em seus sentimentos e em suas percepções.

Nossa prática é a prática da plena consciência - ao respirar, caminhar, comer, lavar os pratos e ao cozinhar - sempre habitando no aqui e no agora. e não permitindo sermos expulsos pelas nossas preocupações, projetos para o futuro ou remorsos em relação ao passado. Temos que reivindicar a nossa liberdade, por que nós a perdemos. Fomos apanhados pelo nosso passado e pelas preocupações com o futuro. Não temos capacidade de estar aqui e agora tocando a vida. É por isso que é muito importante aprender a arte de tornar-se paz aqui e agora.

A presença de uma comunidade com a qual praticar torna isso mais fácil. À sua esquerda há um amigo que sabe como inspirar e expirar e tocar o momento presente. À sua direita está outro amigo que sabe dar um passo e habitar pacificamente e com alegria no presente momento. Atrás de você há uma irmã e à sua frente um irmão que podem fazer o mesmo. Você está cercado de pessoas que dominam a arte de viver no momento presente, a arte de parar, de tocar as sementes de paz e alegria que estão em cada um de nós, a arte de se tornar um instrumento de paz para as pessoas que nos cercam.

"Eu cheguei" é uma prática, não uma afirmação ou uma declaração. Eu cheguei no aqui e agora e posso tocar a vida profundamente com todas as suas maravilhas. A chuva é uma maravilha, o brilho do sol é uma maravilha; as árvores são maravilhosas; os rostos das crianças são maravilhas. Existem tantas maravilhas da vida à nossa volta e dentro de nós. Nossos olhos são maravilhas - precisamos apenas abrí-los para ver todo o tipo de cores e formas. Nosso coração é uma maravilha - se o nosso coração parar de bater , nada poderá continuar.

Quando vamos ao nosso lar no presente momento, tocamos as maravilhas da vida que estão dentro de nós e em torno de nós. Devemos apenas apreciar - não precisamos esperar por amanhã para encontrar a paz e a alegria. Quando você inspirar diga "eu cheguei" e você saberá se você chegou ou não, se você está correndo ou não. Mesmo sentando-se pacificamente, você poderá estar correndo em sua mente. Quando você sentir que chegou, se sentirá muito feliz. Você deve contar pros seus amigos "querido amigo, eu realmente cheguei". Esta é uma boa notícia.

Quando você dá um passo, é maravilhoso chegar em cada momento. É por isso que não conversamos enquanto estamos caminhando. Se estamos ocupados conversando, como poderemos chegar? Se precisamos dizer algo, podemos parar e dizê-lo completamente presentes. Fazemos uma coisa de cada vez. Depois de terminada a conversa, podemos retornar à caminhada e desfrutar de nossos passos. Se você souber como caminhar dessa maneira, estará sempre no Reino de Deus, na presença de Allah, na Terra Pura do Buda, assim como a onda está sempre no reino da água. Eu tenho o prazer de caminhar no reino de Deus todos os dias. É algo que você pode fazer agora mesmo - não é algo na qual se ter esperança. Por que me privar dessa alegria? É algo que cura e nutre bastante. Meus amigos podem fazer isso também, se eles realmente quiserem. Se tudo o que vocês quiserem da vida for um diploma ou um grande salário, isso toma tempo, mas se você quiser desfrutar de uma caminhada no Reino de Deus, você poderá fazê-lo agora - assim que você conseguir voltar ao lar do momento presente.

Quando você inspirar, você pode dizer "Eu cheguei". Quando você expirar, você pode dizer "estou em casa". Nosso verdadeiro lar é o aqui e agora. Somente no aqui e agora é que encontramos nosso real refúgio. No presente podemos estar em contato com nossos ancestrais, com Deus,com nossos filhos e netos. Estas coisas já estão disponíveis no momento presente. Ele é seu verdadeiro lar. Se você se sente em casa, então você não precisa mais correr e sua prática foi bem sucedida. Se você ainda sente que precisa correr, então você ainda não chegou, não está em casa ainda. A sua casa não é apenas o Oriente Médio, a Holanda, Inglaterra ou a América. Sua casa é aqui - aqui significa vida. todas as maravilhas da vida são disponíveis aqui e agora, e isso traz muita alegria, paz e felicidade.

Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other publicado pela Parallax Press.

** Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora no Village des Pruniers (Plum Village), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


Poste um comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Clique aqui e volte à página Reflexões sobre o Budismo Engajado

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Primeira Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante


O Tempo Certo Para um Pic-Nic

"Era uma vez um professor que vivia com seus estudantes em um templo. Um dia um estudante perguntou ' querido professor, vamos fazer um pc-nic um dias desses?'. O professor respondeu 'Sim, vamos achar um dia para fazermos um pic-nic'. Mas eles eram muito ocupados, nunca acharam esse dia. Um ano passou, depois dois, três e mesmo assim não conseguiram fazer um pic-nic. Um dia, enquanto caminhavam juntos pela cidade, eles viram um funeral passando. O professor perguntou ao seu aluno 'O que é isso?'. O estudante disse 'Eles estão indo fazer um pic-nic. O único pic-nic que eles conseguem fazer é quando eles morrem' ".

Eu vivi durante duas guerras do Vietnã e sei o que é a guerra - você nunca sabe se estará vivo esta tarde ou à noite. Existe medo, raiva e desespero. Se você não conseguir lidar com essas coisas, não conseguirá sobreviver. É por isso que a nossa prática é fazer um pic-nic aqui e agora, sem esperar. É possível para os israelenses e palestinos fazerem um pic-nic para que todos possam aproveitar cada momento? Acho que sim.

O pic-nic pode estar acontecendo agora mesmo, neste exato momento. Uma bomba pode explodir hoje, mas, mesmo assim, faremos nosso pic-nic. Estamos todos juntos sentados aqui. Não há nada a fazer. Apenas sentir o prazer de estarmos sentados, sem preocupação - por que sentar-se é um prazer. Ouvir alguém falar também é um prazer. Não precisamos aprender nada, passar em nenhuma prova ou ter diploma. Apenas sentamos e aproveitamos a inspiração e a expiração, ouvindo alguém falando sobe paz. Não é minha intenção dar a ninguém idéias sobre a paz; vocês já estão cheios de idéias. Nossa intenção é sermos paz, aqui, nesse presente instante.

Frequentemente, nossos corpos não estão em paz. Podemos aprender a trazer paz para o nosso corpo, aqui e agora. Ele sofre, especialmente durante os tempos de guerra. Sentimos tensão, stress e pressão. Tratamos nosso corpo de maneira bastante dura e ele está cheio de conflitos. O modo como o tratamos o faz sofrer tanto que acabamos não tendo paz. Para trazer a paz pros nossos corpos, permitimos a eles descansar para que possam ter uma chance de se renovar e curar a si mesmos. Podemos fazer isso agora mesmo. Depois de uma ou duas horas, sentiremo-nos muito melhor. Não estamos apenas falando sobre a paz do corpo, estamos trazendo realmente a paz para dentro dele.

Todos nós temos sentimentos de tristeza, dor ou excitação. Nossos sentimentos fluem através de nós como um rio e frequentemente nos dominam. Estando juntos com nossos amigos que sabem como lidar com seus sentimentos e emoções, poderemos aprender também a lidar com os nossos. Em quinze minutos de respiração consciente consciente, podemos começar a saber como lidar com o nosso medo, desespero e raiva; isto é muito importante. Se você não souber lidar com seu corpo e com seus sentimentos de raiva, medo e desespero, você não poderá falar de paz. Lidar bem com eles trará paz e harmonia ao seu corpo, sentimentos e emoções.

Quando estamos dominados, não percebemos as coisas como elas são; desenvolvemos percepções erradas sobre quem somos nós, quem são os outros e sobre como é o mundo. Estas percepções erradas são a base de todas as nossas ações que trazem infelicidade, destruição, medo e raiva. Precisamos ser capazes de lidar com nossas percepções, para que possamos saber quais percepções são corretas e quais incorretas. A maior parte do nosso sofrimento advém de nossas percepções erradas. Precisamos dedicar um tempo para observar profundamente a natureza de nossas percepções para que não sejamos apanhados por elas, pois são a base de todos os nossos sentimentos, emoções e aflições.

Na vida cotidiana, poucas vezes estamos conscientes de nossos sentimentos, percepções e pensamentos. Raramente somos realmente nós mesmos. Frequentemente, somos vítimas de nossos sentimentos e percepções; somos como uma folha flutuando no oceano, com as ondas nos puxando pra lá e pra cá. Não somos soberanos de nossa própria situação. É por isso que é tão importante voltar ao o nosso lar, a nós mesmos. Dessa maneira, deixamos de ser dominados pela circunstâncias. Esta é a prática básica da paz. Se tivermos alguma paz em nosso corpo, em nossas emoções e em nossas percepções poderemos ajudar outras pessoas a encontrar a paz. Mas temos que começar por nós mesmos. Você não poderá ser um instrumento de paz se não tiver paz em si mesmo. Quando você se tornar esse instrumento, também se tornará um instrumento de Deus, de Allah, do Buda e da realidade última. Isso não é tão difícil. Podemos fazê-lo.

Encontrando Refúgio

Algumas vezes, nos sentimos muito cansados, não temos mais energia e queremos desistir - nossa situação é bastante difícil. Sentimo-nos como se não pudéssemos fazer mais nada. Queremos achar um lugar onde possamos estar protegidos e tomar refúgio em Deus, em Buda ou em Allah. Imagine uma onda que se cansou de subir e descer, pra cima e pra baixo, e que gostaria de buscar refúgio. Existe um refúgio para a onda, que é a água. Se a onda reconhecer que ela é a água e buscar nela o seu refúgio, não terá mais medo de subir e descer. É muito importante que ela saiba que é água e que não precisa buscar a água fora de si mesma.

Talvez você seja uma onda, cansado de subir e descer, de nascer e morrer. Você está procurando algo sólido, seguro e duradouro no qual se refugiar. Se você for uma onda, não precisa buscar pela água. Você é a água, aqui e agora. Deus não existe fora de nós. O absoluto, nosso refúgio, não está fora de nós, está bem aqui, dentro de nós. "Eu descanso em Deus" significa '' Eu tomo refúgio no absoluto". Podemos chamar o absoluto de natureza de Buda, Deus ou Allah; é tudo a mesma coisa.

Quando você descansa em Deus, você não precisa correr, apenas volta ao seu lar, você mesmo, como a onda na água. Se a onda continuar procurando, ela jamais encontrará a água. A única maneira de encontrá-la é voltar à casa de si mesma. Quando ela percebe que é água, encontra a paz. Ela pratica o descanso em Deus aqui e agora. Mesmo que ela continue a subir e descer, está pacificada. Podemos praticar assim - Deus, não como uma entidade separada de nós, mas como o fundamento de nosso ser.

Muitos de nós estamos presos ao ato de se tomar refúgio em uma noção. Pensamos que estamos tomando refúgio no Buda, mas tomamos refúgio em nossa noção de Buda. Pensamos que estamos tomando refúgio em Allah, mas Allah é apenas uma noção na nossa cabeça. É por isso que queremos aqui tomar refúgio no momento presente, na nossa inspiração, na nossa expiração, nos nossos passos. Estas são maneiras muito concretas de tomar refúgio. Inspirando, tomo refúgio na minha inspiração. Sou completamente minha inspiração. Confio na minha inspiração e, junto com ela, eu me torno a paz. Expirando, tomo refúgio na minha expiração, eu me torno minha expiração. Confio em minha expiração e me torno a paz com ela.

Para ler a segunda parte deste texto, clique aqui.

Para ler a terceira parte deste texto, clique aqui.

Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and
Israelis Listening to Each Other publicado pela Parallax Press.

** Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora no Village des Pruniers (Plum Village), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


Poste um comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Clique aqui e volte à página Reflexões sobre o Budismo Engajado

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

O que diria a Osama Bin Laden*
2001

O monge Zen Thich Nhât Hanh explica como a escuta é o primeiro passo para a paz

Entrevista de Anne A. Simpkinson

Thich Nhât Hanh é um monge vietnamita da tradição Zen que trabalhou incansavelmente pela paz durante a guerra do Vietnã, reconstruindo aldeias destruídas pelas hostilidades. Depois de um tour de palestras contra a guerra nos Estados Unidos, não lhe foi permitido voltar ao seu país e então estabeleceu-se na França. Em 1967 o Reverendo Martin Luther King Jr. o indicou como candidato para o Prêmio Nobel da Paz. Atualmente, é conhecido a nível internacional pelos seus ensinamentos e pelos escritos sobre a plena consciência, junto ao seu trabalho em prol de um “Budismo Socialmente Engajado”, uma chamada à ação social baseada nos princípios budistas. Thây, como é afetuosamente chamado pelos seus seguidores, nos fez conhecer as suas reflexões sobre a forma como a América deveria responder aos ataques terroristas. Esta entrevista vai fazer parte de um livro em curso de publicação intitulado Out of the Ashes: A Spiritual Response to America’s Tragedy, que será publicado pela Beliefnet e a Rodale Press.

Se pudesse falar com Osama Bin Laden, o que diria-lhe? E se pudesse falar para o povo americano, o que sugeriria que fizesse nestas circunstâncias, como indivíduos e como nação?

Se me fosse concedida a oportunidade de ficar cara a cara com Osama Bin Laden, a primeira coisa que faria seria escutar. Tentaria compreender porquê agiu de uma forma tão cruel. Tentaria compreender todos os sofrimentos que o levaram à violência. Escutar desta forma poderia não ser fácil, então deveria ficar calmo e lúcido. Precisaria ter perto de mim diversos amigos fortes na prática da escuta profunda, do escutar sem reagir, sem julgar e condenar. Deste jeito, criaria-se uma atmosfera de apoio ao redor desta pessoa e das ligadas a ela, de forma que poderiam realmente experimentar uma partilha, confiar que estejam sendo escutadas de verdade.

Depois de ter escutado por algum tempo, poderíamos precisar de uma interrupção para permitir que o que foi dito entre na nossa consciência. Só quando nos sentirmos calmos e lúcidos, poderemos dar uma resposta. Responderemos ponto por ponto ao que foi dito. Responderemos de forma gentil, mas firme, de forma a ajudá-los a descobrir as suas interpretações erradas, para que possam acabar com os atos violentos de sua própria vontade.

No que diz respeito ao povo americano, sugeriria fazer tudo quanto for possível para restabelecer a calma e a lucidez antes de responder à situação que se criou. Responder demasiado rapidamente, antes de se ter uma boa compreensão da situação, pode ser muito perigoso.

A primeira coisa que podemos fazer é apagar as chamas da raiva e o ódio que são tão fortes em nós. Como falei antes, é de importância crucial olhar para a forma como alimentamos o ódio e a violência dentro de nós e adotar medidas imediatas para eliminar o nutrimento do nosso ódio e a nossa violência.

Quando reagimos dominados pelo medo e o ódio, não temos ainda uma compreensão profunda da situação. A nossa ação será somente uma forma muito rápida e superficial de responder à situação e não produzirá um verdadeiro benefício e cura. Mas se aguardarmos e acompanharmos o processo de acalmar a nossa raiva, olhando profundamente dentro da situação e escutando com uma grande vontade de compreender as raízes do sofrimento que são as causas das ações violentas, então finalmente teremos elementos suficientes para responder de uma forma tal que a cura e a reconciliação poderão ser realizadas por todas as pessoas envolvidas.

Na África do Sul, a Comissão pela Verdade e a Reconciliação fez umas tentativas para chegar a este resultado. Todas as partes envolvidas na violência e na injustiça aceitaram se escutar reciprocamente em um ambiente calmo e confortável, olhar profundamente juntas para as raízes dos atos violentos e procurar soluções compartilhadas para responder às diferentes situações. A presença de fortes líderes espirituais é de grande ajuda para criar e manter um tal ambiente. Podemos inspirar-nos nestes modelo para resolver os conflitos que estão surgindo exatamente neste momento; não precisamos esperar muitos anos para colocá-lo em prática.

Você experimentou pessoalmente a devastação causada pela guerra no Vietnã e trabalhou para pôr fim ao conflito lá. O que pode dizer às pessoas dilaceradas pela dor e iradas porque perderam seres queridos nos ataques terroristas?

Eu perdi meus filhos e minhas filhas espirituais durante a guerra, quando estavam penetrando na região dos combates para tentar salvar os que estavam debaixo das bombas. Alguns foram mortos pela guerra e outros foram assassinados por quem pensava erroneamente que estavam apoiando a parte adversária. Quando olhei para os quatro cadáveres trucidados dos meus filhos espirituais assassinados de uma forma tão violenta, sofri profundamente.

Compreendo o sofrimento daqueles que perderam seus seres queridos nesta tragédia. Em situações de grande perda e dor, precisei retornar à minha calma para restaurar a minha lucidez e a capacidade de compreensão e compaixão do meu coração. Com a prática do olhar profundamente, entendi que se respondo à crueldade e à dor com a crueldade, a injustiça e o sofrimento não podem senão aumentar.

Quando soubemos do bombardeio da aldeia de Bentra no Vietnã, onde foram destruídas 300.000 casas, e os pilotos disseram aos jornalistas que tinham destruído a aldeia para salvá-la, eu fiquei traumatizado e transtornado pelo medo e pela dor. Então praticamos o caminhar de forma calma e gentil sobre a terra, para voltar a obter a calma da mente e a paz do coração.

Embora seja um grande desafio manter a nossa abertura neste momento, é de importância crucial que não respondamos de nenhuma forma até que não tivermos recuperado a calma e a clareza indispensáveis para enxergar a realidade da situação. Nós sabíamos que responder com a violência e o ódio teria prejudicado somente a nós mesmos e as pessoas ao nosso redor. Então nos dedicamos à meditação para estarmos em condição de olhar em profundidade no sofrimento das pessoas que nos infligiam violência, para compreendê-las de forma mais profunda e para compreendermos a nós mesmos de forma mais profunda. Graças a esta compreensão estivemos em condição de produzir compaixão e de aliviar tanto o nosso sofrimento como o sofrimento da outra parte.

Qual é a “coisa correta” a ser feita para responder aos ataques terroristas? Deveríamos procurar justiça através de uma ação militar? Através de ações judiciárias? A intervenção militar e/ou a retaliação é justificada se pode evitar a futura matança de inocentes?

Cada violência é uma injustiça. O foco do ódio e da violência não pode ser extinto acrescentando mais ódio e violência. O único antídoto contra a violência é a compaixão. E do que é feita a compaixão? É feita de compreensão. Quando não há compreensão, como podemos sentir compaixão, como podemos começar a aliviar o grande sofrimento que temos diante dos nossos olhos? A compreensão é a verdadeira base sobre a qual construímos a nossa compaixão.

Como podemos chegar à compreensão e o discernimento necessários para nos guiar através destes momentos de imenso desafio que estamos enfrentando agora nos Estados Unidos? Para sentir compaixão precisamos encontrar meios de comunicação que nos permitam escutar aqueles que estão invocando a nossa compreensão de forma tão desesperada – porque um tal ato de violência é um pedido desesperado de atenção e de ajuda.

Como escutar de um jeito calmo e claro, de tal forma que não mate de antemão as possibilidades de desenvolvimento da compreensão? Precisamos avaliar esta situação como nação: como podemos desenvolver condições tais que permitam que se verifique a escuta profunda, de forma que a nossa resposta à situação possa surgir da calma e da clareza da nossa mente. A clareza é um grande oferecimento que podemos fazer neste momento.

Tem pessoas que só querem uma coisa: vingança. Nas escrituras budistas, o Buda diz que respondendo ao ódio com o ódio só se obtém um aumento do ódio. Mas se usarmos a compaixão para abraçar aqueles que nos prejudicaram, seria um passo importante para desativar as bombas que estão nos nossos corações e nos deles.

Mas como fazer brotar uma gota de compaixão que possa apagar o fogo do ódio? Sabe, a compaixão não se vende no supermercado. Se vendessem a compaixão, só teríamos que levá-la para casa e teríamos resolvido o problema do ódio e da violência no mundo muito facilmente. Mas a compaixão só pode ser produzida no nosso coração graças à prática.

Os Estados Unidos estão ardendo nas chamas do ódio. É por isso que precisamos dizer aos nossos amigos cristãos: “vocês são os filhos de Cristo”. Precisam voltar para vocês mesmos e olhar profundamente e descobrirão porquê esta violência aconteceu.

Porquê há tanto ódio? O que tem debaixo de toda esta violência? Porquê odeiam até o ponto de chegar a sacrificar as suas próprias vidas e infligir um sofrimento tão grande a outras pessoas? Porquê estes rapazes novos, cheios de vitalidade e de força, escolheram perder a própria vida, cometer uma tal violência? É isso que precisamos entender.

Precisamos encontrar uma forma de parar a violência, claro. Se for o caso, precisamos colocar os responsáveis na prisão. Mas o importante é olhar profundamente e perguntar: “Porquê isso ocorreu? Que responsabilidades temos nós pelo que aconteceu?”. Talvez eles nos entendam mal. Mas o que é que os levou a um nível tal de incompreensão que nos odeiam tanto?

O método do Buda é olhar profundamente para ver a fonte do sofrimento; a fonte da violência. Se dentro de nós há violência, qualquer ação pode fazer explodir esta violência. A energia do ódio e da violência pode ser muito grande e quando a vemos em outras pessoas sentimos por elas. Quando sentimos por elas, a gota da compaixão brotou nos nossos corações e nos sentimos muito mais felizes e em paz com nós mesmos. Esta empatia produz o néctar da compaixão dentro de nós.

Você vai para um mosteiro justamente para aprender a fazer isso, para que sempre que sofrer e estiver com raiva saiba como olhar profundamente, para que a lágrima da compaixão possa brotar do seu coração e expulsar a febre da raiva. Só a lágrima da compaixão pode afastar as chamas do ódio.

Precisamos olhar profundamente e com honestidade para a nossa situação atual. Se formos capazes de ver as fontes do sofrimento em nós mesmos e nos outros, poderemos começar a inverter o ciclo do ódio e da violência. Quando a nossa casa estiver pegando fogo, precisamos antes de mais nada apagar o fogo e depois procurar as causas. Do mesmo jeito, se primeiro apagarmos a raiva e o ódio no nosso coração, teremos a possibilidade de analisar a situação profundamente, com clareza e discernimento para determinar todas as causas e condições que contribuíram para o ódio e a violência que estamos experimentando dentro de nós mesmos de no nosso mundo.

Acredita na existência do Mal? E, se for assim, consideraria os terroristas pessoas malvadas?

O Mal existe. Deus também existe. O Mal e Deus são as nossas duas caras. Deus é esta grande compreensão, este grande amor dentro de nós. É o que é chamado também de Buda, a mente iluminada que é capaz de enxergar além da ignorância.

O que é o Mal? É quando a cara de Deus, a cara do Buda dentro de nós está escondida. Corresponde a nós escolher se o lado do Mal predomina ou se o lado de Deus e do Buda resplandece. Mas mesmo se o lado da grande ignorância, do Mal, em um determinado momento possa manifestar-se de forma mais intensa, isto não significa que Deus não esteja lá.

Na Bíblia isso é dito claramente: “Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Isto significa que um ato malvado é um ato de grande ignorância e incompreensão. Talvez haja muitas percepções erradas por trás de um ato malvado; precisamos entender que a ignorância e a incompreensão são as raízes do mal. Cada ser humano contém dentro de si todos os elementos de uma grande compreensão, de uma grande compaixão e também ignorância, ódio e violência.

No seu novo livro Aprendendo a Lidar com a Raiva, você da um exemplo de “escuta compassiva” como um instrumento para curar as famílias. Este instrumento pode ser usado a nível nacional e, neste caso, como funcionaria?

No verão passado um grupo de palestinos e israelenses veio a Plum Village, o centro de meditação onde vivo no Sul da França, para aprender e praticar as artes da escuta profunda e do discurso amoroso. Cada verão, cerca de 1.600 pessoas de mais de uma dúzia de países chegam a Plum Village para escutar e aprender como trazer paz e compreensão na própria vida cotidiana.

O grupo de palestinos e israelenses participou do programa diário de meditação andando, meditação sentada e refeições silenciosas, e seguiu também um treinamento sobre como escutar e falar-se um ao outro de forma a tornar possível uma maior paz a compreensão entre os seus membros, seja como indivíduos que como nações.

Com a guia e o apoio dos monges e das monjas, eles sentaram-se e escutaram-se reciprocamente. Quando uma pessoa falava, ninguém a interrompia. Cada um praticava a plena consciência da própria respiração e da própria escuta de forma tal que a outra pessoa se sentia ouvida e compreendida. Quando uma pessoa falava, eles evitavam usar palavras de aprovação, ódio ou condenação. Falavam em uma atmosfera de confiança e respeito. Graças a estas conversações os participantes palestinos e israelenses conseguiram realmente compreender que ambas as partes sofriam pelo medo. Apreciaram a prática da escuta profunda e se puseram de acordo entre eles para compartilhar com outros o que tinham aprendido, depois da volta aos seus respectivos países.

Nós recomendamos que palestinos e israelenses falassem dos seus sofrimentos, medos e desespero em um fórum público, para que o mundo inteiro possa escutar. Poderíamos todos escutar sem julgar, sem condenar, para compreender a experiência de ambas partes. Isto prepararia o terreno de compreensão apropriado para a abertura de conversações de paz.

A mesma situação existe agora entre o povo americano e o das nações árabes e islâmicas. Há uma grande incompreensão e uma grande falta daquele tipo de comunicação que prejudica a nossa capacidade de resolver as dificuldades de forma pacífica.

A compaixão ocupa um papel relevante dentro do Budismo e da prática budista. Mas, neste exato momento, parece impossível fazer apelo à compaixão para os terroristas. É realista pensar que as pessoas possam sentir uma autêntica compaixão agora?

Sem compreensão, a compaixão é impossível. Quando você compreende o sofrimento dos outros, não precisa se esforçar para sentir compaixão, a porta do seu coração vai se abrir naturalmente. Todos os terroristas eram muito novos, porém sacrificaram a própria vida pelo quê? Porquê o fizeram? Que tipo de sofrimento profundo há aqui? Será necessária uma escuta profunda e um olhar profundo para compreendê-lo.

Se ter compaixão nesta situação é cumprir um ato de perdão. Antes de mais nada, podemos abraçar o sofrimento, tanto fora dos Estados Unidos como no seu interior. Precisamos cuidar das vítimas aqui, no nosso país, mas ter compaixão também pelos terroristas e as suas famílias, porque eles também são vítimas da ignorância e do ódio. Desta forma podemos realmente praticar a não discriminação. Não há nenhuma necessidade de esperar muitos anos ou décadas para realizar a reconciliação e o perdão. Precisamos agora de um despertador, para não permitir que o ódio esmague os nossos corações.

Acredita que as coisas acontecem por uma razão? Se for assim, qual foi a razão pelos ataques aos Estados Unidos?

A razão profunda da nossa atual situação reside nos nossos modelos de consumo. Os cidadãos norte-americanos consomem 60% dos recursos naturais mundiais de energia, mas são apenas o 6% da população mundial. Na América as crianças assistiram a 100.000 atos de violência na televisão antes de ter terminado a primeira série. Uma outra razão da atual situação é a nossa política externa e a falta de escuta profunda nas nossas relações. Nós não usamos a escuta profunda para compreender o sofrimento e as verdadeiras necessidades das pessoas e das outras nações.

Qual acredita que seja a resposta espiritual mais eficaz para esta tragédia?

Podemos começar exatamente neste instante a meditar para acalmar a nossa raiva, olhando profundamente para as raízes do ódio e da violência na nossa sociedade e no nosso mundo, e a escutar de forma compassiva para ouvir e compreender o que ainda não temos a capacidade de ouvir e compreender. Quando a gota de compaixão começar a se formar nos nossos corações e nas nossas mentes, começaremos a desenvolver respostas concretas para a nossa situação. Quando escutarmos ou olhamos profundamente, poderemos começar a desenvolver a energia da fraternidade e da irmandade entre todas as nações, o que representa o mais profundo legado espiritual de todas as tradições religiosas e culturais. Destra forma, a paz e a compaixão no mundo irão crescendo dia após dia.

Desenvolver a gota da compaixão no nosso próprio coração é a única resposta espiritual efetiva para o ódio e a violência. Esta gota de compaixão será o resultado de acalmarmos a nossa raiva, de olharmos profundamente para as raízes da nossa violência, de escutarmos profundamente e de compreendermos o sofrimento daqueles que estão envolvidos nos atos de ódio e violência.

* Texto publicado por primeira vez na edição de outubro de 2001 do Changemakers Journal

Clique aqui para ler a versão original em inglês do texto no site www.beliefnet.com


Poste um comentário
e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Clique aqui e volte à página Reflexões sobre o Budismo Engajado

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

sábado, 26 de maio de 2007

MEMBROS DA REDE BRASILEIRA DE BUDISTAS ENGAJADOS - PESSOAS


Antonino Condorelli - Idealizador da Rede
sangha.natal@hotmail.com
condor_76@hotmail.com

Italiano de nascimento, brasileiro e latino-americano de adoção e coração. Filho de educadores militantes e sindicalistas que viveram como protagonistas as lutas e as paixões da geração que entre final dos anos Sessenta e começo dos Setenta quis mudar a história, cresci embuído pelo espírito humanista e os ideais não-violentos que, passando por Martin Luther King Jr. e Dom Helder Câmara, entre outros, encarnaram-se na Itália no Socialismo Democrático pregado por Enrico Berlinguer.

Comunicador e educador engajado ativamente na luta por uma sociedade justa, democrática, igualitária, pacífica, solidária e participativa, abracei a causa da promoção e defesa incondicional de todos os direitos humanos desde 2003, quando me integrei à equipe do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP) de Natal, Rio Grande do Norte, na Região Nordeste do Brasil. Trata-se da organização-não-governamental que coordena a Rede Estadual de Direitos Humanos - RN e que produziu e gerencia a DHnet - Rede Direitos Humanos e Cultura, o portal que possui o maior e mais completo acervo de dados e informações sobre direitos humanos e cidadania em língua portuguesa.

Articulador internacional de redes sociais glocais (ou seja, que pensam e se articulam globalmente para agir localmente, envolvendo as comunidades e populações periféricas) como a Rede Lusófona de Direitos Humanos, membro do Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos do Rio Grande do Norte, assessor internacional de comunicação da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC) de Cabo Verde (África) e ativista com vocação internacionalista, tendo já atuado como parceiro de organizações sociais caboverdianas e argentinas e passado longos períodos em outros países da América Latina, sou também uma ponte entre os movimentos sociais e as universidades nas áreas de educação em direitos humanos, e educação integral do ser humano, nas qualis realizei diversas capacitações seja de formadores como de estudantes.

Em 2007, fundei a organização-não-governamental Coletivo Quan An de Promoção da Liberdade, a Igualdade e a Solidariedade entre Todos os Seres que tem como principal objetivo promover nas camadas populares da sociedade brasileira uma educação integral do ser humano que religue o corpo, a mente, a dimensão afetiva e a espiritual e estimule a reconexão do eu com a totalidade da vida, integrando a educação em direitos humanos, a educação ecológica e o micro-desenvolvimento comunitário sustentável. Quan An é o nome em vietnamita do bodhisattva Avalokitesvara, o ser que na tradição budista Mahayana encarna a bondade amorosa e a compaixão universais e no capítulo XXV do Sutra do Lótus é descrito como aquele que “escuta todos os gemidos do mundo” e “olha para todos os seres com os olhos da compaixão”

Sou praticante Zen informalmente ligado à Ordem do Interser do mestre Zen vietnamita Thich Nhât Hanh, um dos fundadores e principais protagonistas do Budismo Socialmente Engajado, e tento embasar o mais possível as minhas ações nos princípios da universalidade, indivisibilidade, interdependência e interrelacionamento de todos os direitos humanos; da ecologia profunda, ou seja, a convicção de que o ser humano é parte integrante física, psicológica e espiritualmente do ambiente em que vive e, portanto, a natureza possui um inestimável valor em si mesma, independentemente da utilidade material que tem para o homem; e da não-violência ativa, inspirada na idéia gandhiana de que “não há caminho para a paz, a paz é o caminho”.


Clique aqui e volte à lista das pessoas filiadas.

Clique aqui e veja a lista das entidades e sanghas filiadas.

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

terça-feira, 22 de maio de 2007

O que é o Budismo Engajado?


Por Antonino Condorelli

Por Budismo Socialmente Engajado ou, simplesmente, Budismo Engajado entende-se o envolvimento ativo por parte dos praticantes budistas na sociedade e seus problemas, visando aliviar a dor dos outros, transformar as raízes que produzem injustiça e exploração e promover a paz, a igualdade, a solidariedade, os direitos humanos e a harmonia entre todos os seres.

A expressão Budismo Engajado, criada na década de 1960 por uma encarnação viva do Dharma, o mestre Zen vietnamita Thich Nhât Hanh, para referir-se ao trabalho dos movimentos budistas em prol da paz e os direitos humanos em meio à destruição e as atrocidades da guerra, hoje abrange um amplo leque de organizações, grupos e indivíduos que em muitos países do mundo dedicam-se a praticar os ensinamentos do Buda no coração da dor, com ações e projetos que visam aliviar o sofrimento das pessoas oprimidas por situações de miséria, exploração, privação da liberdade, violência física, psicológica ou sexual e outras formas de negação da dignidade humana, promovendo um novo modelo sociedade que se baseie na percepção da íntima interconexão de tudo o que existe.

A expressão é, na verdade, uma redundância. O Dharma, o caminho do amor e da compreensão traçado pelo Buda Siddharta Gautama há mais de 2.500 anos, é por sua natureza engajado, pois não pode existir longe e independentemente da vida das pessoas, não faz sentido fora do dia a dia e não se nega a enfrentar a dor, mas a encara de frente para transformá-la. Os ensinamentos budistas não são um sistema de crenças vindas de fora às quais aderir: são instrumentos práticos para libertar-se da dor, para cultivar a compaixão, o amor e a equanimidade e para chegar a uma compreensão profunda da realidade. Nascem da vivência e só adquirem valor dentro da experiência. Não são um conjunto de idéias em que acreditar: são uma forma de viver... Uma forma diferente da que estamos acostumados: viver o Dharma é estar em contato com o sofrimento que permeia a existência conscientes da beleza sempre presente em cada instante da vida, é viver sem descriminar, sem julgar, sem separar, reconhecendo a dignidade, a igualdade essencial e a estreita interdependência de todos os seres, o milagre representado por cada fenômeno do universo, porque absolutamente tudo possui a essência de Buda, a natureza da compreensão, o amor e a liberdade. Viver o Dharma não é outra coisa do que viver para aliviar o sofrimento e levar felicidade aos outros. Por isso, o Budismo não pode ser senão “engajado”.


Mas nos anos Sessenta, no Vietnã e outros países asiáticos foi necessário “devolver” ao Dharma esta sua natureza originária desafiando as estruturas e mentalidades patriarcais, engessadas e afastadas da sociedade que caracterizavam a maioria das instituições budistas. Neste processo de reforma e revitalização do Budismo, a partir do caráter intrinsecamente flexível e estritamente vinculado à vida real deste último, verificou-se uma natural confluência entre o Dharma do Buda e elementos contemporâneos que partilham de ideais e princípios análogos como o feminismo, o princípio gandhiano da não-violência ativa e a ecologia profunda.


Desde o coração da Ásia, nas últimas décadas o Budismo Engajado propagou-se pelo chamado “Primeiro Mundo” e hoje conta com uma ampla e articulada rede de entidades e movimentos empenhados em cultivar a paz e a compaixão e em propagar os direitos humanos, o respeito ao meio ambiente e a solidariedade pelo mundo afora. Muitas destas organizações integram o International Network of Engaged Buddhists (Rede Internacional de Budistas Engajados), com sede na Tailândia.


Entre os principais movimentos budistas engajados, destacam-se a Ordem do Interser (Tiep Hien), fundada em 1964 por Thich Nhât Hanh no Vietnã e presente hoje em muitos países, que tem seu núcleo central no Centro de Meditação de Plum Village
no Sul da França e está empenhada em atividades ao redor do mundo de resgate de refugiados, promoção do desenvolvimento sustentável, propagação da paz, a não-violência, os direitos humanos e o respeito ao meio ambiente; as atividades de Sua Santidade o XIV Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz em 1989, não apenas para a liberdade do povo tibetano, vítima da invasão chinesa, mas de propagação incansável dos princípios da não-violência e a compaixão como soluções para os graves conflitos da nossa época; as atividades da comunidade de Samdech Phra Maha Ghosananda, monje Theravada falecido em março de 2007, que foi apelidado “O Gandhi da Camboja” pelo seu trabalho em prol da paz, a justiça social e os direitos humanos no seu país natal; os trabalhos de Sulak Sivaraksa, intelectual e ativista tailandês de inspiração budista, fundador da Sathirakoses Nagapradeepa Foundation e várias outras organizações, que conta com uma trajetória de cerca de setenta anos de atividades em prol da justiça social, a paz, a democracia e o desenvolvimento sustentável. Muitos outros movimentos e organizações dedicam-se a praticar o Dharma como uma força de transformação social em países como Índia, Sri Lanka, Tailândia… e também Estados Unidos, Austrália e diversos países da Europa Ocidental.

Reflexões sobre o Budismo Engajado - Clique aqui e acesse os textos.


Poste um comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com

O que é a Rede Brasileira de Budistas Engajados?

Antes de mais nada, um estado de espírito. Uma energia coletiva de conscientização sobre a realidade do mundo e o país em que vivemos, uma onda de compaixão, bondade amorosa e equanimidade para enfrentar a injustiça social, a exclusão, a exploração e a violência em todas as suas formas e manifestações.

O objetivo da rede é levar a energia de compaixão e amor do Budismo Engajado para a imensa legião de excluídos, explorados e sofredores do Brasil, como primeiro passo para o enraizamento dela na América Latina e para
contribuir, de mãos dadas com todas as forças que integram o movimento brasileiro de direitos humanos, a transformar os corações e as mentes plantando e cultivando as sementes da paz, a igualdade, a solidariedade e a harmonia entre todos os seres, os únicos alicerces sobre os quais pode se sustentar uma sociedade realmente justa e democrática.

A intenção deste blog é fornecer um espaço de diálogo, articulação, debate, divulgação de atividades, troca de informações e de experiências entre organizações, grupos e praticantes individuais de qualquer escola do Dharma que, com a própria sangha ou dentro de organizações de outro caráter, realizam atividades de promoção da dignidade humana e de todos os seres em qualquer parte do Brasil.


Que as sementes desta linda árvore possam germinar e a Rede Brasileira de Budistas Engajados, que já é um sublime estado de espírito, em breve possa manifestar-se também na forma de ações sociais em benefício de todos os seres seja capaz de unir todos seus ramos ao redor de projetos comuns de transformação humana. Se isto acontecer ou não, depende de você...

Escreva para budistas.engajados@hotmail.com e solicite participar deste blog e da Rede. Ficaremos muito felizes com a sua presença!

Junte-se a esta grande correnteza de compreensão, compaixão e amor verdadeiro!


Reflexões sobre o Budismo Engajado - Clique aqui e acesse os textos.



Poste um
comentário e divida seu insight e suas considerações sobre o texto.

Volta à página da Rede Brasileira de Budistas Engajados: http://budistasengajados.blogspot.com