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terça-feira, 17 de junho de 2008

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA


Relato de Thich Nhât Hanh sobre seu retorno ao Vietnã


Por Thich Nhât Hanh
* (Thây)


Recentemente eu tive a experiência de ver o poder de um despertar coletivo quando eu voltei ao Vietnã com uma grande Sangha depois de quase quarenta anos de exílio. Eu vim para o ocidente com quarenta anos. Foi em 1966 quando eu fui aos Estados Unidos pedir o fim dos bombardeios. Os Estados Unidos tinham meio milhão de soldados no Vietnã. No final da guerra, mais de cinqüenta mil deles tinham sido mortos ou perdidos. Muitos milhões de civis vietnamitas morreram durante a guerra. A terra, florestas e água foram poluídas, destruídas por venenos químicos. Naquele tempo, eu já era um conhecido professor e escritor no meu país. Eu desejava ficar nos Estados Unidos por três meses, viajar pelo país e falar sobre a necessidade de parar a luta. Mas depois de três meses, soube que o governo do Vietnã não me queria de volta porque eu tinha ousado pedir por paz.

Muitos de nós no Vietnã sofremos muito e tínhamos visto muito sofrimento ao nosso redor causado pela guerra, portanto tínhamos que falar. Estávamos presos entre dois partidos em guerra e precisávamos falar. Mas muitos de nós não tinham como se expressar. Não havia rádio, nem televisão ou jornal que cobrissem a verdade da situação. Aqueles que ousavam falar contra a guerra eram presos. Portanto alguns se imolaram para atrair a atenção para a situação desafortunada das massas no Vietnã que não queriam a guerra. Apenas então a imprensa começou a perceber que a maioria dos vietnamitas não aceitava a guerra. É por isso que eu decidi viajar para o ocidente, para contar ao mundo sobre o sofrimento da nação e do povo vietnamita.

Depois que soube que o governo do Vietnã do Sul não me queria mais em casa, continuei meus apelos na América por paz e então fui para a Europa, Ásia e Austrália. Finalmente me estabeleci em Paris e iniciei uma comunidade de prática para continuar o trabalho pelo pedido de paz.

Durante aproximadamente quarenta anos no exílio, fizemos tentativas de negociar meu retorno ao Vietnã. Finalmente em janeiro de 2005, eu podia ir para casa. Quando eu deixei o Vietnã, era como uma célula removida de seu corpo. A Sangha é como um corpo, e cada membro é apenas uma célula deste corpo. Mas eu não sequei e morri como uma célula, porque eu trouxe toda a Sangha em meu coração. Eu fui ao ocidente pela minha Sangha e não como um indivíduo, e adiante eu comecei a construir uma pequena Sangha no ocidente. Agora, depois de quarenta anos, minha sangha no ocidente não é tão pequena.

Eu queria voltar ao Vietnã como uma Sangha, não como uma célula. No final, duzentas pessoas viajaram conosco de volta ao Vietnã. Queríamos chegar como uma verdadeira Sangha, mostrar nossa prática de entendimento e amor, porque sabíamos que se nossa prática fosse sólida, forte e autêntica, seríamos capazes de transformar o medo e a suspeita do governo.

Os membros de nossa delegação praticaram bem. No hotel, os leigos praticaram meditação sentada de manhã. Comeram apenas comida vegetariana, nunca tocaram em álcool, eram silenciosos e viviam juntos como uma sangha, em harmonia e em irmandade. Os gerentes do hotel estavam impressionados e diziam: “Eles transformaram nosso hotel em uma sala de meditação.”

A viagem foi difícil porque havia muito medo, muita suspeita. O Museu dos Criminosos de Guerra mostrava minha foto e da Irmã Chan Khong, minha assistente nos últimos cinqüenta anos. Antes da minha chegada, devido a alguns protestos, minha foto foi removida. Mas a foto da Irmã Chan Khong era ainda exibida durante nossa viagem de três meses.

Adicionalmente, durante meus quase quarenta anos de exílio, meus livros foram banidos no Vietnã por ambos os regimes, comunista e anticomunista, porque promoviam a paz e a irmandade, o que ambos os governos consideravam perigoso. Tivemos que negociar um acordo para que doze dos meus livros fossem publicados antes da minha chegada. Mas quando chegamos ao Vietnã, apenas quatro haviam sido publicados. O medo era tão grande!

Levou toda nossa viagem de três meses para que o governo do Vietnã se abrisse a nós. A presença da sangha de monjas, monges, leigos e leigas ajudou tremendamente. As pessoas viam os ocidentais aprendendo meditação e praticando bem. Isto os inspirou. Durante as palestras, presenciamos a transformação bem diante de nossos olhos. Éramos capazes de remover muitas percepções erradas das pessoas. Agora eles sabem muito melhor quem somos, porque muito medo e suspeita foram removidos. Se não fôssemos capazes de nos apoiar usando o poder da sangha e chamar as sementes da paciência, entendimento e compaixão em nós mesmos, teríamos reagido de forma raivosa e deixado o país no meio da viagem.

No início de nossa viagem, era claro que o governo não nos queria ensinando e em contato com as pessoas. Sabíamos que a prática tinha que ser estável e sólida para ser bem sucedida. A ala conservadora do partido tentou de tudo para evitar que as pessoas comparecessem a minhas palestras e ficassem expostas à nossa presença. Antes de chegarmos, soubemos que muitos monges e monjas foram advertidos que não deveriam comparecer aos eventos de nossa sangha ou teriam problemas depois que partíssemos.

Ainda assim continuamos calmos, humildes e sorrindo. Finalmente houve uma ruptura. O Instituto de Ciência Política em Saigon nos permitiu organizar uma palestra para intelectuais, especialistas, membros do partido comunista e membros do governo. Eles dispuseram assentos para trezentas pessoas. Mas como estávamos praticando a fala amorosa e escuta atenciosa, no último minuto conseguimos persuadi-los a deixar a multidão entrar. Naquele dia mais de mil ouviram a palestra. Eu compartilhei nossa experiência de ensinar a prática no ocidente. Eles estavam muito interessados. No final perguntaram várias questões, entre elas essa: “ Se você toma refúgio nas Três Jóias (o Buda, o Dharma e a Sangha), tem ainda o direito de amar seu país e o partido comunista?” Minha resposta veio muito rapidamente e foi muito simples: “ Se ao tomar refúgio nas Três Jóias significa que você perde o direito de amar seu país e o partido, para que serve tomar os refúgios? Todos aplaudiram a resposta por muito tempo. Esta declaração foi reportada ao governo central e a cada braço do partido.

É por isso que quando fui para Hue, permitiram que déssemos palestra para membros do partido comunista, intelectuais e membros do governo. Seis ou sete mil pessoas vieram. E quando fomos a Hanói pela segunda vez, cinco palestras foram organizadas para membros do partido, intelectuais e membros do governo. Todos eles estavam famintos de espiritualidade. Estar com nossa delegação e comigo era uma oportunidade para eles expressarem isso abertamente. No Instituto Político em Ho Chi Minh em Hanói, muitos organizadores comentaram que o diálogo e discussão entre o marxismo e o budismo era crucial. Um membro do partido comunista até ousou dizer que o partido fez grandes erros. Organizadores expressaram um desejo de renovar seu país e aprender mais. A atmosfera era aberta e humana. E era possível sentir a liberdade. Você podia tocar a liberdade de expressão. Era maravilhoso: pode ter sido a primeira vez que as pessoas ousaram falar assim.

Eu fui capaz de ser direto, mas não feri ninguém porque meu coração estava cheio de compaixão e irmandade. Eu disse coisas como, “Sabe, em Plum Village vivemos de forma simples. Monges, monjas e leigos vivemos juntos como uma família. Ninguém tem um carro particular. Ninguém tem uma conta de banco particular. Ninguém tem um telefone particular. Na verdade, nós somos os verdadeiros comunistas.” Eles riram e riram. Eles não estavam absolutamente com raiva. E nossa mensagem atingiu sem fim.

Havia pessoas que temiam por minha segurança porque eu ousei tocar em questões importantes, incluindo corrupção no governo. Ainda assim sentíamos que podíamos falar a verdade, podíamos compartilhar o que estava em nosso coração, porque sabíamos como usar a linguagem da fala amorosa. Como resultado desta atenção em usar meios hábeis para atingir as pessoas, o nível de raiva e medo caiu a cada dia, e uma mudança real aconteceu no governo. Esta experiência nos mostrou de forma poderosa como uma pequena minoria praticando diligentemente pode influenciar a maioria.
O indivíduo pode de fato transformar o coletivo.


Fonte: Sangha Virtual Thich Nhât Hanh Brasil


* Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora em Plum Village (ou Village des Pruniers), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


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quinta-feira, 12 de junho de 2008

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Contribuições budistas para a construção de uma sociedade justa, democrática e civil


Por Thich Nhât Hanh
* (Thây)

Oferecido e traduzido por Denise Kato – Sangha Plena Consciência, São Paulo


Este 5°.
Dia do Vesak promovido pelas Nações Unidas é uma oportunidade para nos reunirmos como uma família, como uma comunidade nutrida pela sabedoria do Buda. Que possamos sentir a alegria de estarmos juntos e percebermos que, se soubermos nos nutrir desta fonte de grande sabedoria, poderemos mudar nossa sociedade e melhorar a qualidade de vida em nosso planeta. E poderemos fazê-lo como uma comunidade.


O principal tema para reflexão este ano é: as Contribuições Budistas para a Construção de uma Sociedade Justa, Democrática e Civil. Este encontro não deve se tornar apenas mais uma conferência para apresentarmos lindas idéias. Os insights coletivos e as decisões que tomarmos juntos deverão ser adotados em nossa vida diária e aplicados à nossa sociedade. Através do apoio contínuo da sangha, da prática da plena consciência, concentração e insight, podemos compartilhar nossa sabedoria, articular nossos caminhos de ação da forma mais clara possível e assumir um compromisso de levarmos nossa vida diária à luz desta sabedoria, seja como indivíduos, como uma comunidade, aldeia, cidade ou país. O Manifesto 2000 da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, n. d. r.) para uma Cultura de Paz e Não-Violência foi assinado por mais de setenta e cinco milhões de pessoas, inclusive muitos chefes de estado, porém não garantiu que aqueles que o assinaram recebessem o apoio necessário para colocar os seis pontos do Manifesto
em prática. Não basta saber que o caminho é lindo. Precisamos trilhar este caminho.


Todos sabemos que a construção de uma sociedade justa, democrática e civil não depende apenas daquilo que fazemos, mas acima de tudo, daquilo que somos. Temos que ser a própria mudança antes que possamos fazer mudanças em nossa sociedade. Estar em paz é a base para gerar paz. Sem transformação e cura pessoais não seremos suficientemente calmos e compassivos para usar a fala amorosa e a escuta profunda, e nossos esforços não ajudarão a mudar nossa sociedade. Assim, nossa prática pessoal e a prática de nossa sangha são essenciais para a mudança que queremos ver no mundo.


1. Guerra, Conflito e Cura


As raízes da guerra e do conflito estão dentro de nós. Temos que reconhecer as aflições dentro de nós, abraçá-las e transformá-las: raiva, ódio, discriminação, orgulho, desespero. A prática consiste em olhar profundamente suas raízes, compreendê-las e aprender a transformá-las. Precisamos dar ouvidos ao nosso próprio sofrimento e ao sofrimento de nossa família, comunidade e nação. Devemos ser capazes de ajudar uns aos outros a reconhecermos que essas aflições existem em cada um de nós e que ao longo de nossas vidas temos permitido o desenvolvimento dessas aflições. Assim, cada um de nós deve assumir o compromisso de não regar as sementes de violência, ódio, discriminação e desespero que estão
em nós. Em nossos relacionamentos com nossos cônjuges, ou entre pai e filho, mãe e filha, irmão e irmã, precisamos ajudar uns aos outros na prática, aprendendo sempre a ouvir o outro com compaixão, sempre utilizando a fala amorosa para ajudá-lo a reconhecer as aflições que carrega dentro de si. Também devemos usar a fala amorosa para regar as sementes de compreensão, compaixão, alegria e irmandade inerentes ao outro. Devemos nos ajudar para que possamos trazer a cura a nossas relações pessoais antes que possamos ajudar a curar a humanidade e a Terra. A cura é possível através de cada respiração, cada passo, cada pensamento, cada palavra e através dos atos mais simples, como sorrir para alguém.


A Terra está padecendo, nossa sociedade está padecendo e há tanto desespero e violência. Práticas budistas, como o Pensamento Correto (ou seja, pensar com base na não-discriminação, compaixão e compreensão), Fala Correta, Ação Correta e Modo de Vida Correto são cruciais para a cura de que todos necessitam. Os jovens devem aprender a praticar o Nobre Caminho Óctuplo em suas famílias e nas escolas. As Negociações de Paz terão êxito apenas se ambas as partes em conflito tiverem compreensão mútua e souberem como fazer uso da escuta profunda e da fala amorosa. E este tipo de treinamento deve começar nos níveis mais básicos da educação. É isto que entendemos por educação da paz e é a forma de sairmos da guerra e da violência.


2. A Contribuição do Budismo à Justiça Social


O Manifesto de 2000 da UNESCO contém 6 pontos e equivale à prática dos Cinco Treinamentos da Plena Consciência. Tanto os seis pontos quanto os Cinco Treinamentos abordam as questões de paz e justiça social no nível mais fundamental. Na tradição budista, após receber os Cinco Treinamentos da Plena Consciência, a pessoa que os tomou deve recitá-los a cada duas semanas e participar de sessões de estudo e discussões do Dharma para entrar mais a fundo em seus significados e para descobrir melhores formas de colocá-los em prática na vida diária, tanto na família como na sociedade. Os Cinco Treinamentos nos ajudam a viver com mais simplicidade, dando-nos o tempo e a energia necessários para proteger a vida e ajudar aqueles que precisam realmente de nós. É possível ser feliz com uma vida simples, com tempo para tomarmos conta de nós mesmos, de nossa família, daqueles que sofrem e, ao mesmo tempo, promovermos uma justiça social maior. Muitos de nós correm atrás da fama, do poder, do sexo e do dinheiro durante toda a vida, mas mesmo aqueles que têm essas quatro coisas em abundância continuarão sofrendo muito se não tiverem compreensão e amor.


Quando praticamos o segundo treinamento da generosidade para oferecermos nosso tempo, energia e recursos materiais àqueles que necessitam realmente deles, nossa vida torna-se repleta de significado e realização. O Budismo e a prática dos Cinco Treinamentos têm muitos meios para levar mais justiça e compaixão à sociedade. Com plena consciência, compaixão e compreensão dentro de nós, agimos naturalmente, levando a cura a nossas relações, comunidade e sociedade. Devemos estar cientes das situações de injustiça, como desigualdade entre gêneros e a exclusão da mulher, a opressão de minorias, a exploração das crianças e dos pobres. Há muitas formas de falarmos sobre injustiça e de chamarmos a atenção daqueles que sofrem e não são ouvidos.


Podemos organizar passeatas para promover a paz, pois cada passo é um movimento em direção à paz. Não se trata de uma demonstração ou de um protesto, mas sim de uma verdadeira manifestação de paz, de irmandade. Podemos escrever declarações de amor a nossos políticos e representantes. Nossa sangha de Plum Village ofereceu retiros de plena consciência para policiais, membros do Congresso dos EUA, artistas e cineastas, ambientalistas, psicoterapeutas, líderes do comércio, assim como israelenses e palestinos. Os Cinco Treinamentos Budistas da Plena Consciência e os seis pontos do Manifesto de 2000 são a verdadeira prática da compreensão e do amor. São o caminho para uma sociedade justa.


3. Budismo Engajado e Desenvolvimento


O Budismo Engajado é o primeiro de todos os tipos de Budismo praticado ao longo de todo o dia, ininterruptamente, vivendo em plena consciência e concentração quando caminhamos, dirigimos, cozinhamos, vamos ao banheiro, etc. O Budismo Engajado também é a nossa prática dos Cinco Treinamentos da Plena Consciência dentro de nosso ambiente social. Praticamos a compreensão e o amor em nossa família, escola, local de trabalho, hospital, prisão, fábrica, exército, prefeitura e governo. Não precisamos usar termos budistas para trazer a prática à nossa vida diária.


A presença de plena consciência, concentração e insight, o espírito do interser, a não-discriminação, compreensão e compaixão são a própria presença do Budismo. Não temos que converter as pessoas ao Budismo, mas podemos inspirá-las a viver e trabalhar de acordo com este caminho nobre. Podemos encontrar felicidade no desenvolvimento da compreensão e da compaixão. Nosso índice para medir a felicidade, o sucesso e o progresso de nossa nação não deve ser o Produto Interno Bruto ou nosso poder aquisitivo, mas sim nosso nível de compreensão e compaixão.


Os quatro Brahmaviharas (bondade amorosa, compaixão, alegria e equanimidade) são energias ilimitadas que podem ser desenvolvidas para nossa felicidade e para a felicidade do mundo. Essas energias jamais ocorrem
em excesso. A prática da produção e do consumo conscientes (o Quinto Treinamento da Plena Consciência) garante que sempre seguiremos o caminho do desenvolvimento sustentável. A verdadeira felicidade deve ser a base de nossas políticas de produção, consumo e desenvolvimento. Nossa sabedoria é o interser, a Visão Correta Budista do mundo, no sentido de que tudo depende de todo o resto para se manifestar. Se outras espécies não podem sobreviver, então os humanos também não sobreviverão. Proteger o ambiente é proteger a nós mesmos. Não somos apenas nosso corpo e espírito, somos também nosso ambiente. Nosso ambiente é a retribuição de nossa ação coletiva (karma). Viver com simplicidade, desenvolver a compreensão e o amor, cuidar de nosso ambiente, assumir um compromisso em prol do desenvolvimento sustentável - em outras palavras, seguir o caminho do Buda.


4. A Resposta Budista à Mudança Climática


A queima de combustíveis fósseis e o desmatamento de florestas como formas de suprir nossos meios de transporte, e o consumo de carne e laticínios são as principais causas do aquecimento global. Segundo um estudo das Nações Unidas publicado em
2007, a solução é reduzir a produção de carne em 50% e dirigir carros com combustível mais limpo e somente quando estritamente necessário. Muitos budistas não comem carne. Reduzir ou abandonar totalmente o consumo de carne e álcool não é tão difícil. As pessoas realmente cientes da gravidade da situação devem começar a agir imediatamente. Podemos incorporar a prática do ”dia sem carro” (no car day) ou “dia sem motocicleta” uma vez por semana. Podemos dirigir um carro híbrido. Podemos consumir alimentos vegetarianos ou vegan deliciosos! Há muitas coisas que podemos fazer desde já para salvarmos o planeta. Nossa civilização se auto-destruirá se não acordarmos a tempo.


5. Problemas Familiares e a Resposta Budista


O presente mais precioso que os pais podem dar a seus filhos é sua própria felicidade. É fundamental que os pais tenham tempo para cuidar um do outro e de seus filhos, não se deixando levar pelo trabalho e seus projetos. Ter uma vida simples é a resposta, pois nos permite parar de correr atrás da fama, do dinheiro e do sucesso, e investirmos naquilo que é o mais importante: nossa própria paz e felicidade, e a paz e a felicidade de nossas famílias e comunidades. A prática da escuta profunda e da bondade amorosa preserva e recupera a comunicação. As crianças aprendem naturalmente com os pais a amarem e cuidarem de si. Se os pais deixam de fumar e consumir álcool, as crianças farão o mesmo.


Os Cinco Treinamentos da Plena Consciência devem ser o código de ética da vida familiar. Ir ao templo para recitar os Cinco Treinamentos da Plena Consciência a cada duas semanas e praticar o Começar de Novo* continua sendo uma forte tradição em muitos países budistas. A família é o solo a partir do qual a árvore (criança) cresce. Se não praticar o Começar de Novo, regar as boas sementes no outro, a habilidade da escuta profunda e a fala amorosa, um casal não conseguirá nutrir seu amor e manter a comunicação viva. A prática da plena consciência possibilita a transformação e a cura, fazendo com que os pais protejam-se contra o divórcio e o distanciamento de seus filhos.


6. Educação Budista: Continuidade e Progresso


Os Estudos Budistas se tornaram teóricos demais ao longo do tempo. Podemos ser doutores em estudos budistas e não saber como transformar nosso sofrimento e nossas angústias. Não temos a habilidade necessária para formar uma sangha, para ajudar a reconciliar conflitos em nossa família ou comunidade, para praticar os treinamentos da plena consciência, a concentração e o insight. Hoje em dia, nosso conhecimento sobre o Budismo só nos permite escrever livros budistas e ensinar o Budismo nas escolas. Temos que reorganizar nossos estudos budistas e transformar nossas instituições de ensino em centros de prática também.


Alunos e professores devem praticar juntos, e os professores deve conhecer na prática a experiência da transformação e da cura antes que tenham permissão para ensinar. Vamos formar instituições de Budismo Aplicado e oferecer cursos e práticas voltados à transformação e à cura. Nas escolas, nossas crianças precisam ter a chance de aprender a lidar com a raiva e a violência que trazem dentro de si, saber como escutar com compaixão e usar a fala amorosa. A instrução cívica e a ética budista devem ser ensinadas de modo que mesmo as crianças mais jovens possam praticá-las.


7. O Budismo na Era Digital


O Dharma está disponível a muitas pessoas nesta Era Digital. Podemos participar de uma palestra do Dharma ao vivo, de uma discussão do Dharma, ou até mesmo de uma sessão de meditação sentada com um Mestre e uma sangha sem sairmos de nossas próprias casas, a quilômetros de distância do Mestre e da sangha. É possível beneficiar-se da energia da sangha, ainda que distante. Podemos baixar materiais da internet para estudarmos o Dharma. Ainda assim, nada substitui a intimidade entre o mestre e o discípulo, um membro da sangha e a sangha. A prática da formação de uma sangha, cara-a-cara, continua sendo um passo importante. A construção de uma sangha requer escuta profunda, fala amorosa, compreensão, amor e apoio. Uma sangha por correspondência não é suficiente. Uma sangha com uma boa prática sempre carrega consigo o Buda vivo e o Dharma vivo. Assim, aprender meios de construir uma sangha torna-se uma prática essencial. Uma boa sangha pode ser um refúgio para muitas pessoas. Em nossas instituições budistas, a formação de uma sangha é um tema importante de aprendizado e treinamento.


É também muito importante modernizar e atualizar nossas tradições para que permaneçam relevantes às pessoas de nossa era. A internet, como tecnologia moderna, pode ser um instrumento cheio de recursos para transmitir os ensinamentos do Buda e ajudar a aliviar o sofrimento das pessoas. Podemos fazer o download do som do sino e programar nosso computador para que toque a cada meia-hora, ou a cada hora, ajudando-nos a parar, respirar e retornar à plena consciência. A internet permite que um número imenso de pessoas tenham acesso ao Dharma e isso é fundamental, principalmente entre os jovens. Também precisamos aplicar a sabedoria do Budismo para nos protegermos dos perigos da tecnologia. Em nossa versão atualizada do Pratimoksa, os monásticos têm agora preceitos para o uso da internet com outras pessoas, para que não caiam acidentalmente em sites que não sejam íntegros.


O Buda nos ofereceu uma ferramenta diagnóstica muito boa sob a forma das Quatro Nobres Verdades: sofrimento, as raízes do sofrimento, o fim do sofrimento e a prática para cessar o sofrimento. O Budismo deve ser praticado à luz das Quatro Nobres Verdades e a transformação e a cura de que necessitamos deverão acontecer aqui e agora, e não posteriormente, em outro mundo. Sabemos muito bem como apresentar teorias budistas, mas ainda não conseguimos colocar seus lindos ensinamentos em prática no aqui e agora. A prática, principalmente o Dharma vivo, deve ser bela no aqui e no agora. Neste encontro do Vesak, vamos aproveitar esta oportunidade para compartilhar nosso insight e nosso despertar, vamos nos comprometer a viver nossa vida diária à luz deste insight e deste despertar, e apoiar uns aos outros neste caminho de vida. As contribuições do budismo à construção de uma sociedade, justa, democrática e civil devem ser observadas em nossa prática, em nossa vida diária. Através de nossa consciência, nosso despertar, nosso compromisso, podemos ser a própria mudança que queremos ver em nossa sociedade.


Palestra de Dharma proferida no Retiro sobre Budismo Engajado realizado no Vietnã em maio de 2008


Fonte: Sangha Virtual Thich Nhât Hanh Brasil


* Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora em Plum Village (ou Village des Pruniers), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


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quinta-feira, 13 de março de 2008

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Terceira Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante

Para ler a primeira parte deste texto, clique aqui.

Para ler a segunda parte deste texto, clique aqui.

Os Cinco Reinos da Paz

Nós temos nosso próprio território de paz dentro de nós, que é composto de cinco reinos - nosso corpo, nossos sentimentos, nossas percepções, formações mentais e consciência. Temos que trazer paz ao nosso corpo e remover seus conflitos, tensão e dor. Existem também muitas tempestades, aflições e dor no reino de nossas emoções. Temos que aprender a trazer a paz para esse território de sentimentos e emoções.

Quando eu olho para a minha caneta, eu tenho uma percepção dela. Se minha percepção corresponde fa realidade da caneta ou não é uma questão real - por que vivemos com muitas percepções errôneas. Acreditamos que somos os únicos a sofrer, que os outros estão nos fazendo sofrer e que eles não sofrem de jeito nenhum. Este é um tipo de percepção errônea. Se acharmos tempo para inspirar e expirar e encontrar a paz em nós mesmos, poderemos ver que as outras pessoas também sofrem enormemente, assim como nós, e precisam ser ajudadas, não punidas. Por isso a paz não poderá ser possível sem a remoção dos elementos de percepção. Quando nossas percepções nascem da raiva e do medo, elas não podem ser chamadas de percepções corretas. Por sua vez, nossas percepções erradas dão origem ao medo, à raiva e ao desespero, que podem nos levar a cometer atos de violência, punição e morte. Por causa disso, é muito importante praticar a meditação sentada e andando, para podermos trazer paz aao reino das nossas percepções e remover os elementos errôneos.

O quarto reino é aquele das formações mentais, cittasamskara. Uma formação (samskara) é algo que se manifesta quando muitas condições são reunidas. Uma flor é uma formação física - chuva, o sol, a terra, o tempo, o espaço se reuniram para que a flor se manifestasse. Nosso corpo é uma formação fisiológica. Todas as formações são impermanentes e estão em constante mudança. Nosso medo, nossa raiva, nossa discriminação, esperança, alegria e nossa plena consciência são formações mentais. Na tradição budista, identificamos cinquenta e uma formações mentais. Quando contemplamos nossa mente, não estamos olhando para um espaço claro e vazio, olhamos para as nossas formações mentais.

Por fim temos o reino da consciência. Temos que voltar para o lar da nossa consciência, poor que nossa consciência é o chão de todas as coisas. Nosso corpo, nossos sentimentos, percepções e formações mentais nascem do chão da consciência. Não somente o nosso corpo contém nossa consciência, nossa consciência também contém o nosso corpo.

Eu Sou Sólido, Eu Sou Livre

O que significa ser sólido? Significa estar no momento presente. Nós temos uma tendência a sermos jogados em direção ao passado. Sentimos remorso por alguma coisa ou nos sentimos culpados e nos perdemos em meio a tudo isso. Não somos sólidos por que somos vítimas do passado. Não somo capazes de viver no momento presente por que o passado se tornou como um fantasma, sempre nos puxando de volta. Existem pessoas que somente pensam no passado, que não são capazes de viver no presente, que não são livres e nem sólidas.


Muitos de nós estamos amarrados por nossas preocupações, medo e incerteza em relação ao futuro. Essas preocupações não permitem estar presentes e tocar a vida. Quando dizemos "Cheguei, estou em casa", "você não pode me pegar, estou no aqui e no agora" ou "eu sou mestre de mim mesmo", então nos tornamos sólidos. "Eu sou sólido" não é conversa fiada. Se você for capaz de chegar e se sentir em casa, então se tornará sólido naturalmente. Isto é um sinal de que você está aqui e agora, em casa. Nâo é mais uma esperança, é realidade, você se torna consciente de que está mais sólido. Se você gastar três minutos caminhando, chegando e se sentindo em casa em cada momento, a solidez se tornou uma realidade, um fato. Você saberá quando estiver sólido ou não. Você será sólido quado estiver completamente estabelecido no aqui e no agora. O passado não pode te pegar e nem o futuro; você é livre. Por isso dizemos "Eu sou sólido, eu sou livre".

Livre de que? Livre do passado, das minhas preocupações, do meu medo. É por isso que solidez e liberdade não são duas coisas. Quando somos sólidos, somos livres; quando somos livres, somos sólidos. É como o aqui e agora. Solidez e liberdade são o fundamento da paz e da liberdade. Cada passo consciente que damos nos ajuda a cultivar mais solidez e mais liberdade. Seja você mesmo, seja livre, estabeleça-se no aqui e no agora. Toque a vida profundamente e receba o alimento e a paz que você tanto necessita.


A onda está agora repousando na água. Você está repousando no absoluto, em Allah, em Deus, em sua natureza de Buda. Não é um questão de tempo. O absoluto está disponível aqui e agora; a água está disponível para a onda aqui mesmo, nete exato momento. O absoluto é o nosso fundamento. Caminhando e respirando dessa maneira, você estará sempre em contato com Deus, não como uma noção, uma idéia, mas enquanto uma realidade. Você pode tocar em Deus, tocando em uma flor, tocando o ar, tocando outra pessoa. Fora dessas coisas não há Deus. Se você remover todas as ondas, não haverá mais água. Tocar as maravilhas da vida em você e à sua volta significa tocar o absoluto.

A Paz Está Em Cada Momento

A Sala de Meditação é maior que a sala que você usa para se sentar. Ela inclui o ar e a terra em volta e até mesmo o banheiro que você usa. Você pode achar que o banheiro não é tão sagrado quanto a sala de meditação, mas isso não é verdade. No espírito do Zen, o banheiro é tão sagrado quanto a sala de meditação ou o salão do Buda. É por isso que pomos um vaso de flores no banheiro, para mostrar que ali também é um lugar para praticar. Quando você lavar suas mãos no banheiro aprecie a água escorrendo pelos seus dedos – isso é Deus, isso é felicidade. Você é capaz de apreciar a água, essa maravilha da vida,escorrendo pelos seus dedos? Se você estiver aqui, agora – plenamente consciente e concentrado – sentir a água escorrendo nos seus dedos será maravilhoso, e isso lhe servirá de alimento e cura. Aproveite cada segundo e sorria para si mesmo. A paz está aqui e agora, disponível. Escove seus dentes de tal modo que a paz e a alegria sejam possíveis. Desafie a si mesmo: quando estiver escovando os dentes, pergunte a si mesmo se você é feliz ou não. Dê a si mesmo tempo suficiente para apreciar. E também ao urinar, desfrute esse momento. Por que ter pressa? Desfrute do seu tempo no banheiro.

A paz e a alegria deveriam ser possíveis em cada momento. Por favor, tente. Quando caminhamos juntos, como um grupo, desfrutamos da energia coletiva da plena consciência e da concentração. Se nos perdermos em pensamentos, se formos carregados pelos nossos projetos, pelo passado ou pelo futuro, então o caminhar sólido de um irmão à nossa direita ou de uma irmã à nossa esquerda nos trará de volta ao lar do nosso aqui e agora e, assim, poderemos retomar nossa caminhada plenamente consciente. Cada passo dado assim nos serve como cura e alimento. Não pense nisso como uma prática difícil. A prática deve ser alegre e prazeirosa. Se você sofrer durante o caminhar, o sentar ou o comer, então você não estará praticando corretamente. É um pic-nic – você deveria ser capaz de apreciar cada momento.

De tempos em tempos convidamos o sino a soar. O sino é a voz de Deus, do Buda, de Allah em nós, chamando-nos para o nosso verdadeiro lar, para o aqui e o agora. Sempre que o telefone tocar, é também a voz de Deus nos chamando de volta ao momento presente. Se você estiver ajudando na cozinha ou trabalhando no jardim, desfrute cada minuto do ato de cozinhar ou de cuidar do jardim. Você está sempre no Reino de Deus – não o deixe. O passaporte para entrar no Reino de Deus é a plena consciência e a concentração. Mantenha esse passaporte com você e você estará apto a permanecer no Reino de Deus e não terá que deixá-lo.

Aproveite o seu pic-nic.

Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other publicado pela Parallax Press.

** Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora no Village des Pruniers (Plum Village), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Entrevista à Monja Coen: “A vida em harmonia com a própria vida”


Por Paulo Stekel

Monja Coen Sensei é missionária oficial da tradição Soto Shu - Zen Budismo, com sede no Japão, e é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001. Foi ordenada monja em 1983, quando foi para o Japão, lá permanecendo por 12 anos, sendo 8 dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo.

Retornou ao Brasil em 1995, e liderou as atividades no Templo Busshinji (São Paulo), sede da tradição Soto Shu para a América do Sul, durante seis anos. Foi, em 1997, a primeira mulher e primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano.

Participa de encontros educacionais, interreligiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não-violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos.

O que é ser "Zen"? Depende de uma prática budista ou é mais uma atitude de vida?

Zen Budismo é uma das tradições religiosas budistas. É a prática da vida em harmonia com a própria vida.

É apenas impressão ou muitos praticantes budistas brasileiros - independente da escola - encaram a prática muitas vezes como um "modismo", uma simples "reunião social" ou algo para motivo de status? Ocorre o mesmo no Oriente? Isso contribui de alguma forma para a divulgação do Budismo?

Há muitas pessoas à procura de alguma coisa que não sabem exatamente o que é. Quem se aproxima é porque tem algum relacionamento. O Zen Budismo, o Budismo em geral, é muito pequeno no Brasil. Já no Oriente é a religião tradicional. O que convida brasileiros a se interessarem? A procura de si mesmos, a procura de um significado para vida-morte, a procura da verdade e do caminho. Nem sempre as pessoas têm clareza sobre isso.

Atualmente o Budismo tem se aproxi-mado do Cristianismo através do diálogo interreligioso. Que ações a comunidade budista brasileira tem realizado socialmente em prol dos menos afortunados? Perguntamos isso porque muitas pessoas nos relatam a impressão de que, pelo menos no Brasil, o Budismo tem sido uma "prática de elite". Isso reflete a realidade ou é uma falsa impressão?

O Budismo é muito pequenino no Brasil. As tradições japonesas aqui no Brasil mantêm creches, escolas, centros assistenciais, hospitais, asilos para idosos - alguns em parceria com grupos cristãos, outros independentes. Nossa comunidade faz trabalho voluntário no Hospital Emílio Ribas, atendendo pacientes e cuidadores e também na Casa de Acolhida de Pinheiros, com crianças e adolescentes de rua. Definitivamente muito pouco, mas é o que podemos fazer agora. Há muitas formas de trabalho social e uma delas é a de transformar as mentes discriminadoras e preconceituosas de elites que mantêm as diferenças sociais. Mais do que assistencialismo temos de transformar culturas e sociedades. Se prestar atenção, note que o Cristianismo chegou ao Brasil através dos imigrantes portugueses - uma elite na época.

A sra. já foi casada no Japão. Como foi isso? Por que algumas escolas budistas japonesas permitem o casamento a monges? Isso foi produto do reconhecimento de uma questão natural, como afirmam os monges da Terra Pura, já que, no passado, a maioria dos monges tinham relacionamentos às escondidas?

A grande maioria dos monges são casados no Japão. Desde cerca de uns duzentos anos, quando em comum acordo com as lideranças políticas, as lideranças religiosas optaram por permitir o casamento dos monásticos. Foram várias as causas, uma delas a que você mencionou. Mas não foi a única.

Mesmo no Budismo há preconceito contra a mulher, especialmente quanto a esta ocupar os postos mais elevados na hierarquia? Essa postura não contradiz os ensinamentos do Buda?

Sim. Qualquer discriminação ou preconceito é contrária aos ensinamentos de Buda. Entretanto, o próprio Senhor Buda discriminou contra as mulheres e fez oito regras especiais para que se tornassem monjas. Hoje, quando estudamos em profundidade o assunto, temos de verificar como era a sociedade local na época e percebemos o avanço de Xaquiamuni Buda ao permitir, mesmo que com regras especiais, que as mulheres se tornassem monásticas. Assim, podemos perceber que mesmo os seres mais elevados estão sujeitos à Lei da Causalidade e envolvidos pelos valores locais, regionais e culturais. A sabedoria con-siste em percebê-los e transformá-los. Para isso vivemos.

Seu trabalho atualmente é praticamente independente, correto? O lado bom disso não seria incentivar trabalhos mais independentes, uma forma de adaptação ao conflito e de assegurar que os ensinamentos sejam transmitidos sem prejuízo?

Sem dúvida aprendemos com as várias experiências da vida. Devo admitir que tem sido muito estimulante trabalhar de maneira mais livre e independente.

O Budismo no Ocidente tem cerca de um século. Algumas adaptações já são sentidas e se fala num "budismo ocidental". Isso ocorreu no Tibete, que se adaptou à forma indiana de prática e a mesclou com sua religião xamânica original (o Bön). O "Budismo Ocidental" será uma mescla com o Cristianismo?

Não sei. Espero que não. Espero que possamos manter as tradições separadas e nos respeitar mutuamente. O Budismo Brasileiro será mais arroz com feijão do que sopa de misô. Mas ainda faltam muitos e muitos anos para falarmos em Budismo brasileiro. Nos Estados Unidos já se fala em Budismo Americano, com características definitivamente diferentes das orientais. Mas aqui no Brasil ainda engatinhamos. O que acontecerá?

A senhora vê a Internet como um dos meios adequados para divulgação do Budismo neste mundo globalizado? Isso pode contribuir para uma união maior entre as diversas escolas budistas?

Sim.

A senhora pertence a alguns movimentos que buscam a união entre as religiões. Claro que uma "união doutrinária" é difícil, já que cada uma tem uma estrutura própria. Mas a união de propósitos - o bem-estar da humanidade e do planeta como um todo - parece viável. Como vê essa tendência?

A Iniciativa das Religiões Unidas tem o propósito de criar culturas de paz, justiça e cura da Terra. Não é uma proposta fácil de se realizar. Mas acredito que a transformação de uma sociedade violenta e corrupta em uma sociedade mais justa e não violenta depende também do respeito e compreensão entre as religiões do mundo.

Agradecemos muito sua gentileza em conceder esta entrevista. Gostaríamos que deixasse uma mensagem para nossos leitores, se possível sobre o que cada um, independente da prática religiosa, pode fazer para melhorar o planeta, as condições ambientais, e diminuir a violência, o materialismo e o sofrimento geral.

Perceber que somos a vida da Terra. Não viemos nem iremos a nenhum outro lugar. Deixamos marcas com nossa existência. Visíveis e invisíveis. Que possamos deixar marcas de amor e ternura, compaixão e sabedoria para que todos os seres se beneficiem e todos possam viver em harmonia e fartura. É cuidando que somos cuidadas. É servindo que somos servidas. É fazendo o bem que nos beneficiamos. Interligados, interconectados com toda a vida do universo. Tudo sempre retorna a nós mesmos. Somos a vida. Mãos em prece.

Fonte: Revista Horizonte – Leitura Holística, n. 12, outubro de 2007


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quinta-feira, 4 de outubro de 2007

REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Segunda Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante

Para ler a primeira parte deste texto, clique aqui.

Para ler a terceira parte deste texto, clique aqui.

Caminhando Conscientemente

Em Plum Village, quando caminhamos, tomamos refúgio em cada passo e entramos em contato com o absoluto em nossos passos. Damos um passo e tomamos refúgio inteiramente nele. O absoluto se torna disponível para nós naquele momento. Você tem que trazer cem por cento do seu corpo e do seu espírito ao tomar refúgio nos seus passos.

Na nossa vida diária, temos o o hábito de correr. Buscamos paz, sucesso, amor, Deus - estamos sempre correndo - e nossos passos são o meio para fugirmos do momento presente. Deus está disponível somente no momento presente. Dar um passo e tomar refúgio nele significa parar de correr. Para aqueles que estão acostumados a estar sempre correndo é uma revolução dar um passo e parar de correr. Damos um passo e, se soubermos como dar este passo, a paz e Deus estarão disponíveis no momento em que tocarmos a terra com nossos pés.

Enquanto caminho devagar, quando inspiro, dou um passo e quando expiro, dou outro passo. eu me entrego inteiramente ao dar o passo enquanto inspiro. Tomo refúgio inteiramente no passo, encontro o absoluto, Deus e a vida, por que a vida é disponível apenas no momento presente. Estas são coisas bastante simples, mas nunca encontramos tempo para percebê-las. O passado já se foi, o futuro não está aqui ainda,somente o momento no qual podemos estar realmente vivos: o momento presente. É por isso que é tão importante tomar refúgio na nossa inspiração e no nosso passo, por que eles são os únicos meios para nos levar ao nosso lar no momento presente, onde podemos tocar a vida e encontrá-la profundamente.

Eu Cheguei

Imagine que você está em um avião, voando para Nova Iorque. Uma vez sentado lá dentro, você pensa "Tenho que me sentar quieto durante seis horas até chegar lá". Sentado no avião, você pensa somente em Nova Iorque, não é capaz de viver os momentos que lhe são oferecidos agora. Mas é possível, para você, caminhar no avião de tal modo que você desfrute de cada momento de paz. Você não precisa chegar em Nova Iorque para estar em paz e feliz. Ao longo de sua caminhada, cada passo traz a você felicidade e você chega em cada momento. Chegar significa chegar em algum lugar. Quando você pratica a meditação andando você chega em cada momento - você chega ao destino da vida. O momento presente é um destino. Inspirando, dou um passo, outro passo e digo a mim mesmo "eu cheguei, eu cheguei".

"Eu cheguei" é a nossa prática em Plum Village. Quando você inspira, toma refúgio em sua inspiração, e diz "Eu cheguei". Quando você dá um passo, você toma refúgio no seu passo e diz "Eu cheguei". Isto não é uma declaração para si mesmo ou pra outra pessoa. "Eu cheguei" significa eu parei de correr. Eu cheguei no momento presente, por que somente o momento presente é vida. Quando eu inspiro e tomo refugio em minha inspiração, toco a vida profundamente. Quando dou um passo e tomo refúgio inteiramente no meu passo, também toco a vida profundamente e, desse modo, paro de correr. Parar de correr é uma prática muito importante. Corremos durante toda a nossa vida. Acreditamos que a paz, a felicidade e o sucesso estão presentes em algum lugar e em algum tempo. Não sabemos que tudo - paz, felicidade e estabilidade - deveriam ser procurados no aqui e agora. Este é o endereço da vida - a interseção do aqui e do agora.

Isto parece ser fácil, e todos podem fazê-lo, mas precisa de algum treinamento. A prática de parar é crucial. Como eu paro? Paramos através de nossa inspiração, de nossa expiração e de nossos passos. É por isso que a nossa prática básica consiste em respirar conscientemente, andar com plena consciência. Se você dominar estas práticas, então você poderá praticar o comer consciente, o beber consciente, o cozinhar consciente e o dirigir carros consciente - e você sempre estará em paz. Não devemos ser como o professor e seus alunos que estavam sempre correndo até virem um funeral e perceberem que este era o pic-nic final. Temos que desfrutar o nosso pic-nic aqui mesmo, neste exato momento. E temos os meios de fazê-lo. Se você acha muito difícil inspirar ou dar um passo com plena consciência, você está errado. São coisas bastante agradáveis. Você pode tocar a paz apenas pela inspiração ou com um passo. Você pode tocar a semente de paz que existe dentro de você e remover a tensão e o conflito em seu corpo, em seus sentimentos e em suas percepções.

Nossa prática é a prática da plena consciência - ao respirar, caminhar, comer, lavar os pratos e ao cozinhar - sempre habitando no aqui e no agora. e não permitindo sermos expulsos pelas nossas preocupações, projetos para o futuro ou remorsos em relação ao passado. Temos que reivindicar a nossa liberdade, por que nós a perdemos. Fomos apanhados pelo nosso passado e pelas preocupações com o futuro. Não temos capacidade de estar aqui e agora tocando a vida. É por isso que é muito importante aprender a arte de tornar-se paz aqui e agora.

A presença de uma comunidade com a qual praticar torna isso mais fácil. À sua esquerda há um amigo que sabe como inspirar e expirar e tocar o momento presente. À sua direita está outro amigo que sabe dar um passo e habitar pacificamente e com alegria no presente momento. Atrás de você há uma irmã e à sua frente um irmão que podem fazer o mesmo. Você está cercado de pessoas que dominam a arte de viver no momento presente, a arte de parar, de tocar as sementes de paz e alegria que estão em cada um de nós, a arte de se tornar um instrumento de paz para as pessoas que nos cercam.

"Eu cheguei" é uma prática, não uma afirmação ou uma declaração. Eu cheguei no aqui e agora e posso tocar a vida profundamente com todas as suas maravilhas. A chuva é uma maravilha, o brilho do sol é uma maravilha; as árvores são maravilhosas; os rostos das crianças são maravilhas. Existem tantas maravilhas da vida à nossa volta e dentro de nós. Nossos olhos são maravilhas - precisamos apenas abrí-los para ver todo o tipo de cores e formas. Nosso coração é uma maravilha - se o nosso coração parar de bater , nada poderá continuar.

Quando vamos ao nosso lar no presente momento, tocamos as maravilhas da vida que estão dentro de nós e em torno de nós. Devemos apenas apreciar - não precisamos esperar por amanhã para encontrar a paz e a alegria. Quando você inspirar diga "eu cheguei" e você saberá se você chegou ou não, se você está correndo ou não. Mesmo sentando-se pacificamente, você poderá estar correndo em sua mente. Quando você sentir que chegou, se sentirá muito feliz. Você deve contar pros seus amigos "querido amigo, eu realmente cheguei". Esta é uma boa notícia.

Quando você dá um passo, é maravilhoso chegar em cada momento. É por isso que não conversamos enquanto estamos caminhando. Se estamos ocupados conversando, como poderemos chegar? Se precisamos dizer algo, podemos parar e dizê-lo completamente presentes. Fazemos uma coisa de cada vez. Depois de terminada a conversa, podemos retornar à caminhada e desfrutar de nossos passos. Se você souber como caminhar dessa maneira, estará sempre no Reino de Deus, na presença de Allah, na Terra Pura do Buda, assim como a onda está sempre no reino da água. Eu tenho o prazer de caminhar no reino de Deus todos os dias. É algo que você pode fazer agora mesmo - não é algo na qual se ter esperança. Por que me privar dessa alegria? É algo que cura e nutre bastante. Meus amigos podem fazer isso também, se eles realmente quiserem. Se tudo o que vocês quiserem da vida for um diploma ou um grande salário, isso toma tempo, mas se você quiser desfrutar de uma caminhada no Reino de Deus, você poderá fazê-lo agora - assim que você conseguir voltar ao lar do momento presente.

Quando você inspirar, você pode dizer "Eu cheguei". Quando você expirar, você pode dizer "estou em casa". Nosso verdadeiro lar é o aqui e agora. Somente no aqui e agora é que encontramos nosso real refúgio. No presente podemos estar em contato com nossos ancestrais, com Deus,com nossos filhos e netos. Estas coisas já estão disponíveis no momento presente. Ele é seu verdadeiro lar. Se você se sente em casa, então você não precisa mais correr e sua prática foi bem sucedida. Se você ainda sente que precisa correr, então você ainda não chegou, não está em casa ainda. A sua casa não é apenas o Oriente Médio, a Holanda, Inglaterra ou a América. Sua casa é aqui - aqui significa vida. todas as maravilhas da vida são disponíveis aqui e agora, e isso traz muita alegria, paz e felicidade.

Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other publicado pela Parallax Press.

** Carinhosamente apelidado Thây pelos seus seguidores, Thich Nhât Hanh é monge Zen vietnamita, poeta, militante pacifista e ativista dos direitos humanos. Fundou a Ordem Tiep Hien ou Ordem do Interser, que pratica o Budismo na perspectiva do engajamento social. Sobreviveu a duas guerras e a um exílio de mais de 30 anos. Em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz por Martin Luther King Jr. Autor de mais de uma centena de livros, mora no Village des Pruniers (Plum Village), um centro de meditação no Sul da França e viaja por todo o mundo conduzindo retiros sobre a arte do viver consciente. Para mais informações sobre o mestre Thây e seus ensinamentos, visita os blogs em português: http://interserblog.blogspot.com, http://br.geocities.com/sangavc e http://sangavirtual.blogspot.com.


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REFLEXÕES BUDISTAS SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

A Paz Começa Aqui* (Primeira Parte)

Por Thich Nhât Hanh

Tradução de Samuel Weimar Cavalcante


O Tempo Certo Para um Pic-Nic

"Era uma vez um professor que vivia com seus estudantes em um templo. Um dia um estudante perguntou ' querido professor, vamos fazer um pc-nic um dias desses?'. O professor respondeu 'Sim, vamos achar um dia para fazermos um pic-nic'. Mas eles eram muito ocupados, nunca acharam esse dia. Um ano passou, depois dois, três e mesmo assim não conseguiram fazer um pic-nic. Um dia, enquanto caminhavam juntos pela cidade, eles viram um funeral passando. O professor perguntou ao seu aluno 'O que é isso?'. O estudante disse 'Eles estão indo fazer um pic-nic. O único pic-nic que eles conseguem fazer é quando eles morrem' ".

Eu vivi durante duas guerras do Vietnã e sei o que é a guerra - você nunca sabe se estará vivo esta tarde ou à noite. Existe medo, raiva e desespero. Se você não conseguir lidar com essas coisas, não conseguirá sobreviver. É por isso que a nossa prática é fazer um pic-nic aqui e agora, sem esperar. É possível para os israelenses e palestinos fazerem um pic-nic para que todos possam aproveitar cada momento? Acho que sim.

O pic-nic pode estar acontecendo agora mesmo, neste exato momento. Uma bomba pode explodir hoje, mas, mesmo assim, faremos nosso pic-nic. Estamos todos juntos sentados aqui. Não há nada a fazer. Apenas sentir o prazer de estarmos sentados, sem preocupação - por que sentar-se é um prazer. Ouvir alguém falar também é um prazer. Não precisamos aprender nada, passar em nenhuma prova ou ter diploma. Apenas sentamos e aproveitamos a inspiração e a expiração, ouvindo alguém falando sobe paz. Não é minha intenção dar a ninguém idéias sobre a paz; vocês já estão cheios de idéias. Nossa intenção é sermos paz, aqui, nesse presente instante.

Frequentemente, nossos corpos não estão em paz. Podemos aprender a trazer paz para o nosso corpo, aqui e agora. Ele sofre, especialmente durante os tempos de guerra. Sentimos tensão, stress e pressão. Tratamos nosso corpo de maneira bastante dura e ele está cheio de conflitos. O modo como o tratamos o faz sofrer tanto que acabamos não tendo paz. Para trazer a paz pros nossos corpos, permitimos a eles descansar para que possam ter uma chance de se renovar e curar a si mesmos. Podemos fazer isso agora mesmo. Depois de uma ou duas horas, sentiremo-nos muito melhor. Não estamos apenas falando sobre a paz do corpo, estamos trazendo realmente a paz para dentro dele.

Todos nós temos sentimentos de tristeza, dor ou excitação. Nossos sentimentos fluem através de nós como um rio e frequentemente nos dominam. Estando juntos com nossos amigos que sabem como lidar com seus sentimentos e emoções, poderemos aprender também a lidar com os nossos. Em quinze minutos de respiração consciente consciente, podemos começar a saber como lidar com o nosso medo, desespero e raiva; isto é muito importante. Se você não souber lidar com seu corpo e com seus sentimentos de raiva, medo e desespero, você não poderá falar de paz. Lidar bem com eles trará paz e harmonia ao seu corpo, sentimentos e emoções.

Quando estamos dominados, não percebemos as coisas como elas são; desenvolvemos percepções erradas sobre quem somos nós, quem são os outros e sobre como é o mundo. Estas percepções erradas são a base de todas as nossas ações que trazem infelicidade, destruição, medo e raiva. Precisamos ser capazes de lidar com nossas percepções, para que possamos saber quais percepções são corretas e quais incorretas. A maior parte do nosso sofrimento advém de nossas percepções erradas. Precisamos dedicar um tempo para observar profundamente a natureza de nossas percepções para que não sejamos apanhados por elas, pois são a base de todos os nossos sentimentos, emoções e aflições.

Na vida cotidiana, poucas vezes estamos conscientes de nossos sentimentos, percepções e pensamentos. Raramente somos realmente nós mesmos. Frequentemente, somos vítimas de nossos sentimentos e percepções; somos como uma folha flutuando no oceano, com as ondas nos puxando pra lá e pra cá. Não somos soberanos de nossa própria situação. É por isso que é tão importante voltar ao o nosso lar, a nós mesmos. Dessa maneira, deixamos de ser dominados pela circunstâncias. Esta é a prática básica da paz. Se tivermos alguma paz em nosso corpo, em nossas emoções e em nossas percepções poderemos ajudar outras pessoas a encontrar a paz. Mas temos que começar por nós mesmos. Você não poderá ser um instrumento de paz se não tiver paz em si mesmo. Quando você se tornar esse instrumento, também se tornará um instrumento de Deus, de Allah, do Buda e da realidade última. Isso não é tão difícil. Podemos fazê-lo.

Encontrando Refúgio

Algumas vezes, nos sentimos muito cansados, não temos mais energia e queremos desistir - nossa situação é bastante difícil. Sentimo-nos como se não pudéssemos fazer mais nada. Queremos achar um lugar onde possamos estar protegidos e tomar refúgio em Deus, em Buda ou em Allah. Imagine uma onda que se cansou de subir e descer, pra cima e pra baixo, e que gostaria de buscar refúgio. Existe um refúgio para a onda, que é a água. Se a onda reconhecer que ela é a água e buscar nela o seu refúgio, não terá mais medo de subir e descer. É muito importante que ela saiba que é água e que não precisa buscar a água fora de si mesma.

Talvez você seja uma onda, cansado de subir e descer, de nascer e morrer. Você está procurando algo sólido, seguro e duradouro no qual se refugiar. Se você for uma onda, não precisa buscar pela água. Você é a água, aqui e agora. Deus não existe fora de nós. O absoluto, nosso refúgio, não está fora de nós, está bem aqui, dentro de nós. "Eu descanso em Deus" significa '' Eu tomo refúgio no absoluto". Podemos chamar o absoluto de natureza de Buda, Deus ou Allah; é tudo a mesma coisa.

Quando você descansa em Deus, você não precisa correr, apenas volta ao seu lar, você mesmo, como a onda na água. Se a onda continuar procurando, ela jamais encontrará a água. A única maneira de encontrá-la é voltar à casa de si mesma. Quando ela percebe que é água, encontra a paz. Ela pratica o descanso em Deus aqui e agora. Mesmo que ela continue a subir e descer, está pacificada. Podemos praticar assim - Deus, não como uma entidade separada de nós, mas como o fundamento de nosso ser.

Muitos de nós estamos presos ao ato de se tomar refúgio em uma noção. Pensamos que estamos tomando refúgio no Buda, mas tomamos refúgio em nossa noção de Buda. Pensamos que estamos tomando refúgio em Allah, mas Allah é apenas uma noção na nossa cabeça. É por isso que queremos aqui tomar refúgio no momento presente, na nossa inspiração, na nossa expiração, nos nossos passos. Estas são maneiras muito concretas de tomar refúgio. Inspirando, tomo refúgio na minha inspiração. Sou completamente minha inspiração. Confio na minha inspiração e, junto com ela, eu me torno a paz. Expirando, tomo refúgio na minha expiração, eu me torno minha expiração. Confio em minha expiração e me torno a paz com ela.

Para ler a segunda parte deste texto, clique aqui.

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Fonte: Blog Interser


* Trecho do Livro de Thich Nhât Hanh Peace Begins Here: Palestinians and
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sábado, 18 de agosto de 2007

TEXTOS E REFLEXÕES SOBRE A REALIDADE CONTEMPORÂNEA

Antonino Condorelli, Compreensão e Compaixão são o Caminho: Religando as Tradições Espirituais à sua Essência - Discurso pronunciado no evento de lançamento do Fórum Potiguar de Diálogo Inter-Religioso (14/05/2009)

Entrevista a Amália Souza por Graciela Selaimen, Para reaprender a lutar pela vida - Artigo digital publicado na edição de 29 de outubro de 2004 da Rets - Revista do Terceiro Setor

Shaazka Beyerle e Cynthia Boaz, O poder da N
ão-Violência - Artigo publicado na edição de 18/10/2007 do jornal International Herald Tribune

Fritjof Capra, As Conexões Ocultas - Palestra proferida no Instituto para o Desenvolvimento SocioAmbiental, em São Paulo, em 11 de agosto de 2003

Vanessa de Castro Rosa, O que são os direitos humanos? - Terceira Parte

Vanessa de Castro Rosa, O que são os direitos humanos? - Segunda Parte

Vanessa de Castro Rosa, O que são os direitos humanos? - Primeira Parte


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